Com uma trajetória na carreira de ator iniciada em 2005, o argentino Ignacio Rogers resolveu se aventurar na direção de longas-metragens neste ano com “O Diabo Branco”. A produção em cartaz nos cinemas brasileiros toca em pontos sensíveis da colonização latino-americana como o massacre dos povos originários a partir do terror. 

“O Diabo Branco” traz um grupo de quatro amigos que têm um estranho encontro com um misterioso homem quando chegam para pernoitar em uma pousada no interior da Argentina. As férias ideais dos amigos são arruinadas quando eles acabam se tornando reféns de uma antiga lenda maligna que assombra a cidade.  

O Cine Set teve a oportunidade de conversar com Ignacio Rogers sobre o filme e as inspirações para a origem da história. Confira abaixo o bate-papo: 

Cine Set – Como surgiu a ideia para o filme? A lenda na qual ele se baseia realmente existe na Argentina ou você a inventou? 

Ignacio Rogers – A história foi inventada mesmo. Tinha a ideia de um conquistador chegando a esta nova terra para pagar por todos os crimes que cometeu. Durante a escrita do roteiro, eu lia crônicas sobre a conquista da América e uma coisa que me chamou atenção foi que alguns dos povos originários não tinham noção do que fazer em uma guerra, enquanto os espanhóis estavam com armas e táticas definidas. 

Por isso, criei a história de um ritual em que um destes soldados espanhóis acaba capturado pelas tribos em um ritual e devolvê-lo contra sua própria gente. Este conquistador que matou tanta gente, que derramou tanto sangue, agora, tem a alma capturada pagando por seus atos. Claro que há uma inspiração em lendas locais e antigas das províncias trazendo elementos do cotidiano. 

Depois de escrito o filme, me deparei com a história de um conquistador real com este que havia inventado – loiro, solitário, sanguinário – ligado à América do Norte, um braço direito do Hernán Cortés. Ele foi responsável por matar centenas dos Aztecas. 

Cine Set – Quanto tempo demorou para você escrever a história e começar a gravar? E como foi a experiência de estrear na direção de longas-metragens com uma produção de terror? 

Ignacio Rogers –Somando o tempo em que comecei a escrever o filme até ficar pronto para o lançamento decorreram quatro anos. Durante este tempo, também me envolvi em outro projeto, uma comédia.  

Desde a minha infância com cinco, seis anos, eu assistia filmes de terror e me impressionavam muito. Inicialmente, pensei em fazer “O Diabo Branco” como um curta-metragem sem ser um terror, mas, sim, ligado aos sonhos com apenas um personagem. Porém, com o tempo, a tendência natural foi evoluindo o projeto, o que levou os sonhos a virarem pesadelos, mais personagens surgiram se tornando um grupo de amigos. Quando percebi, estava fazendo um filme de terror. 

Porém, seria um filme de terror com minhas regras e características locais, adaptando e traduzindo a linguagem vista nas produções americanas que me marcaram para um outro tipo de ritmo, atuação, fotografia, etc. 

Cine Set – Você trouxe uma localidade bem específica da Argentina para a obra. Como foi o processo para construir a ambientação do filme? 

Ignacio Rogers – Foi estranho o que se passou: eu tinha escrito o roteiro com esta ambientação surgindo de forma abstrata e a natureza como um destino puro desta história. Fiz todo este trabalho sem saber onde iria filmar. 

Durante a pré-produção, começamos a procurar lugares na Argentina com condições para que pudéssemos filmar. Nesta busca, aparece Tucumán, uma província do norte do país onde fica uma cidade grande rodeada de florestas e bosques. Em dois dias que estivemos lá, os lugares da produção apareciam espontaneamente como havia imaginado. Foi espetacular. A região tem uma potência selvagem que está impressa no filme. 

Tucumán também é o primeiro lugar por onde entraram e se estabeleceram os conquistadores no território hoje conhecido como Argentina. Isso é mágico e se sente no filme de alguma forma. Em “O Diabo Branco”, também gravamos algumas cenas em um parque chamado Santa Catarina, localizado a uma hora de carro de Buenos Aires. O louco é que a região registrou um assassinato meses antes de uma garota com o mesmo nome da primeira personagem feminina que morre no filme. Ficamos assustados com a coincidência. 

Cine Set – Você também possui uma carreira como ator, e o filme depende muito das interações do grupo de amigos protagonistas. Como foi a sua relação com os atores para construir essa dinâmica? 

Ignacio Rogers – Os atores todos se conhecem, são amigos e amigos meus também. Conheço como trabalham por já termos feitos projetos anteriormente. Essa confiança foi importante assim como o fato de serem bons atores.  

Além desta confiança interna do grupo de atores, também imaginei uma confiança no espectador, ou seja, que o público acreditasse no personagem, mas, em determinado momento, se questione sobre determinada ação dele. Essas relações são fundamentais para a dinâmica de “O Diabo Branco”. 

Cine Set – O que você acha que mais agregou ao gênero de terror partindo da sua localidade e originalidade? 

Ignacio Rogers –Claro que a lenda e a própria região são pontos centrais disso, mas, creio que as atuações e os diálogos são aspectos mais locais daquilo que escuto todo dia. O cinema argentino e o latino, de modo geral, possuem outro código de atuação completamente diferente de Hollywood.  

Em “O Diabo Branco”, fiz questão de pensar em como eu diria tais diálogos da forma mais natural possível se estivesse naquela situação. Era uma estratégia para reforçar essa sensação de cotidiano e realidade.  

Cine Set – No filme, a população local assume um papel de antagonismo, mas não de vilania. Tanto o grupo de amigos quanto os moradores padecem sobre aquele mal presente há mais tempo, que fica mais perceptível na relação estranha entre moradores das grandes cidades e moradores interioranos, uma realidade latino-americana presente no filme. 

Ignacio Rogers – Sim, o filme aborda essa separação carregada de preconceitos e estúpida de ambos os lados com os dois se sentindo superiores. Antes achava que era uma situação mais da Argentina, porém, percebo que está ligada à América Latina como um todo.   

Percebe-se o outro como um perigo como se fosse um eco deformado daquela conquista, onde, lá no passado, realmente havia dois mundos distintos. Hoje em dia, esta separação é construída por nós mesmos e permanece vigente. “O Diabo Branco” acaba sendo uma extrapolação disso. 

No fim das contas, o filme tenta mostrar que as feridas das conquistas de séculos atrás estão abertas e a ignoramos para seguir com nossas vidas estúpidas, mas, a violência e as injustiças permanecem o tempo todo. 

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Autor

  • Gabriel Bravo de Lima

    Estudante de jornalismo na Universidade Federal do Amazonas, e diretor de cinema. Pelo seu primeiro curta-metragem, “No dia seguinte ninguém morreu”, recebeu o prêmio de melhor roteiro na terceira edição do festival de cinema Olhar do Norte. Desenvolve pesquisa de iniciação científica sobre a estética do cinema contemporâneo Manauara.

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