Fernanda Torres é a vencedora de Melhor Atriz em Drama por “Ainda Estou Aqui”.

Parece surreal, mas a história aconteceu em Los Angeles no domingo, 5 de janeiro. Neste novo vídeo do Cine Set, falo sobre o feito extraordinário da brasileira e seu caminho rumo ao Oscar 2025.

DIMENSIONANDO O FEITO

Antes de mais nada, é preciso dimensionar a grandeza da conquista de Fernanda Torres. Esta, talvez, seja a vitória mais épica que o Globo de Ouro já viu na categoria.

Afinal, trata-se da conquista de uma artista brasileira, que nem sempre está nos holofotes do cinema mundial, em uma produção falada em português contra candidatas das mais tradicionais de Hollywood. Somadas, Kate Winslet, Nicole Kidman e Angelina Jolie possuem 13 Globos de Ouro, além de todo o reconhecimento midiático natural de estrelas globais. E, ainda, Fernanda superou Tilda Swinton na concorrência interna na Sony Pictures Classics, distribuidora nos EUA tanto de “O Quarto ao Lado” quanto de “Ainda Estou Aqui“.

Nem comparo com o caso de Isabelle Huppert, pois a atriz francesa estava em um filme de um diretor com longa passagem por Hollywood, Paul Verhoeven de “Instinto Selvagem” e “Tropas Estrelares”, além de ser uma das grandes atrizes do cinema europeu das últimas décadas com parceiras prolíficas com cineastas como Michael Haneke. Fora toda a força tradicional do cinema da França, país que sempre investiu na circulação de suas produções.

A vitória de Fernanda também serve para lavar a alma do cinema brasileiro, que sofreu muito nos últimos anos com ataques de diversos tipos, vindo tanto de alas políticas quanto do próprio público. Claro que a produção nacional não precisa de prêmios dos EUA para ser grandiosa – ela é grandiosa por si mesma – mas é inegável que ver “Ainda Estou Aqui” indo tão longe deixa todos nós orgulhosos.

RUMO AO OSCAR: FERNANDA PRÓXIMA DA INDICAÇÃO

Agora, vamos falar sobre o que isso significa para a temporada de premiações: Fernanda Torres precisava desta conquista no Globo de Ouro para ainda se manter com chances no Oscar. Afinal, ela ficou fora da longlist do BAFTA, das indicadas ao Critics’ Choice e dificilmente estará no SAG, o prêmio do Sindicato dos Atores.

Embora os votantes do Globo de Ouro não sejam os mesmos da Academia, a visibilidade da premiação e o tamanho da conquista de desbancar grandes nomes de Hollywood em frente a outras grandes estrelas são fundamentais para fortalecer a campanha de Fernanda. Aqueles que queriam votar nela, mas estavam hesitantes por ser uma “outsider”, agora se sentem mais motivados ao perceber que há chances reais de vitória até mesmo no Oscar.

Agora, enquanto todos no Brasil celebram a vitória, os executivos da Sony certamente estão se preparando para o trabalho árduo de projetar “Ainda Estou Aqui” nos EUA. Todos vão querer saber quem é a tal ‘Fernanda Torres’ que superou Kidman, Winslet e Jolie na corrida pelo Oscar.

Se a estratégia de focar na ala internacional para fidelizar os votos deu certo – e tudo indica que sim – agora a busca é por votos dentro dos EUA. A atuação de Fernanda não é exatamente do tipo que os americanos costumam abraçar, por ser mais contida, mas o contexto da personagem e a luta histórica de Eunice, retratada no filme de Walter Salles, são poderosos demais para serem ignorados.

CANDIDATAS ENFRAQUECIDAS

O resultado também ajuda a colocar em dúvida algumas das principais adversárias por essa vaga. Basta analisar a situação de Angelina Jolie: apontada como uma das favoritas em Melhor Atriz, a estrela de “Maria” enfrenta um filme que não deslancha e que está ficando em segundo plano na Netflix, enquanto “Emilia Pérez” cresce a cada dia e pode se tornar a primeira vitória do streaming em Melhor Filme.

Se Kate Winslet, Tilda Swinton e Pamela Anderson parecem ter atingido o seu teto, Nicole Kidman ainda não conseguiu consolidar seu favoritismo. A sensação de que “Babygirl” não é o filme ideal para uma segunda vitória pode explicar isso.

Angelina Jolie ainda tem a oportunidade de se recuperar com o Critics’ Choice. Caso perca, o cenário se complica de vez. Nicole, por outro lado, foi esnobada nos críticos. A presença de ambas na lista do SAG será decisiva; as indicações serão reveladas no dia 8 de janeiro. Se ficarem de fora, suas chances no Oscar podem enfraquecer.

Olhando para a categoria de comédia/musical, Demi Moore garantiu sua indicação com a vitória no Globo de Ouro. Já o discurso emocionante a coloca como uma forte candidata à vitória. Karla Sofía Gascón carrega o nome do filme sensação do momento e dificilmente ficará de fora. Mikey Madison sofreu um revés com o desempenho medíocre de “Anora”, mas ainda a vejo como uma forte candidata ao Oscar. Cynthia Erivo, por outro lado, está ficando para trás.

E não podemos esquecer de Marianne Jean-Baptiste: os ingleses farão de tudo para que ela vença Melhor Atriz. Sua vitória no BAFTA é praticamente garantida. Se conseguir figurar entre as indicadas ao SAG, seu nome ficará ainda mais forte.

HISTÓRICO A FAVOR

Neste momento, o mais importante é que Fernanda Torres garanta sua indicação ao Oscar. Ela está muito perto: a única vez neste século em que a vencedora do Globo de Ouro em Melhor Atriz de Drama não foi indicada ao Oscar aconteceu em 2008, com Kate Winslet por “Foi Apenas um Sonho”. Detalhe: naquela temporada, ela ganhou o prêmio da Academia por “O Leitor”.

Antes disso, em 1989, Shirley Maclaine perdeu a indicação, mas naquele ano houve um triplo empate com Jodie Foster e Sigourney Weaver – estas duas indicadas.

A estatística está a favor de Fernanda, mas, independentemente do que acontecer, sua vitória no Globo de Ouro já está marcada na história do cinema brasileiro.