“Noke Koi – a festa de um povo verdadeiro” abre sua projeção com uma apresentação protocolar de tudo aquilo que veremos no decorrer do documentário. Captado no idioma nativo dos Noke koi, acompanhamos a sua preparação anual para o festival que reafirma sua identidade e cultura. O evento responsável por reunir a etnia é capturado pelas lentes de Sérgio de Carvalho e Alexandre Barros.

A produção mescla um tom documental antropológico impregnado por um viés institucional, dessa forma, por mais interessante que seja a discussão presente na trama, nunca se despede de um tom fastidioso. Parte disso se deve ainda a perda de oportunidade de adentrar em questões contemporâneas que fujam do diálogo já lugar comum que ronda o olhar sobre o indígena no cinema brasileiro.

Temáticas como ancestralidade, demarcação territorial e impactos socioambientais em reservas indígenas são importantíssimos. No entanto, “Noke Koi” toca de forma superficial em questões como a resistência de jovens indígenas na manutenção da cultura ancestral. Este último, um relato contemporâneo interessantíssimo e com abertura não apenas para o audiovisual, mas para pesquisas que possam oferecer vieses do que realmente vem ocorrendo. “Noke Koi” perde a oportunidade de fazer isso.

Tal situação ocorre porque a maior preocupação da produção é acompanhar a pré-produção e o festejo. Neste processo, é como se estivéssemos junto a eles atentos a cada passo dado e também como ouvidos dos organizadores angustiados para que a tradição permaneça e as novas gerações abracem sua ancestralidade e continuem o legado estabelecido. Algo incômodo é que, embora escutemos as aflições dos adultos, a palavra não é dada aos jovens para que o seu lado também seja exposto. Pelo contrário, os indiferentes ao evento são tratados com distanciamento e os que aceitam a ancestralidade nem tampouco são lembrados para além de figuração.

Em meio a tudo isso, um ponto interessante é a movimentação: há uma presença constante de movimento desde as primeiras imagens até o momento derradeiro da “Noke koi”. A caminhada atravessa toda a projeção junto com a discussão sobre demarcação, visualmente isso se torna interessante quando a poeira sobe apontando o quanto a caminhada da etnia revela a busca de ancestralidade e o progresso contínuo em direção a manutenção de sua cultura. A poeira do solo misturado as estrelas do céu salientam que o objetivo foi alcançado por pelo menos mais 365 dias. Este é um dos pontos mais fortes da trama e que não se eclipsa pelo tom institucional.

Como olhar etnográfico, “Noke Koi” é um filme interessante de se acompanhar. Como um documentário sem pretensões organizacionais, no entanto, ele não consegue se sustentar e perde força conforme sua projeção avança.