Há um silêncio de 6 minutos em “Me leve no esquecimento”. Vemos Laura em atividades cotidianas e, ao mesmo tempo, apáticas. A iluminação é escura, a luz ganha espaço dentro da tela conforme a projeção avança. Neste interim, a direção de Felippy Damian deixa elementos simbólicos que nos mostram que estamos diante de uma despedida.
“Me leve no esquecimento” toma a música homônima que embala os créditos da narrativa, o eu-lírico eternizado na voz de Fagner pede que caso não puder ser levado fisicamente, que seja levado no coração e é justamente isso que essa figura feminina que vaga por uma cidade deserta, repleta de memórias e de sentimentos, faz. Entre os labirintos de recordações e símbolos que ela observa com atenção, Laura está se despedindo. Sua cidade foi condenada, o roteiro de Damian com Ângela Coradini discutem a questão política da forma mais humanamente compreensível: uma história de amor que não deu certo.
Quem nunca viveu um eterno talvez que atire a primeira pedra. Aos 6 minutos de projeção, quando Laura começa a ler a última recordação materializada desse amor, uma carta, as imagens simbólicas assumem um novo contexto. Se outrora, havia um cotidiano preso em indiferença e apatia, entendemos que isso representa o estado de espírito da protagonista. De alguém que está afundado em imaginar a tentativa de vivenciar as experiências que alocam seus sentimentos e, ao mesmo tempo, se sente ameaçada pelo fantasma de esquecer as migalhas e experiências completas que teve.
A fotografia de Duflair Barradas se torna responsável por causar um choque visual. Por um lado, as recordações do que é lido causam em Laura um gás para tirá-la do estado de torpor e a cinematografia exprime isso com o ganho de coloração e planos que nos situam melhor em suas ações, mas não tão distantes a ponto de também a tratarmos com indiferença. O rosto da protagonista, contudo, evidencia uma tristeza que se torna mais palpável a medida que compreendemos sua real situação: presa em uma cidade prestes a ser destruída, carregando no peito um sentimento incompleto.
Diante disso, penso no quanto “Me leve no esquecimento” é uma homenagem poética. De um lado, temos vidas com tanto a oferecer e com promessas de futuro, que, assim como o amor de Laura, nunca se concretizarão, deixando o plano das ideias habitado por vítimas do destino e pessoas no entremeio do que poderiam ter sido. Do outro lado, o que é mais catastrófico do que um amor fadado a dar errado? Literalmente, uma catástrofe ambiental como a de Mariana e Brumadinho. É interessante como o roteiro usa a carta e a história de Laura para homenagear vítimas fatais e aqueles que sobreviveram com as marcas da memória.
“Me leve no esquecimento”, no final das contas, se torna um poema visual modernista que exacerba como, às vezes, vale a pena retornar para os labirintos da memória e os sentimentos que a permeiam para nunca esquecer daqueles que já fizeram parte da nossa jornada.













