É a minha primeira vez diante do cinema de Sara Gómez. E talvez por isso tudo me pareça tão íntimo. Como se, em cada plano, a cineasta me dissesse: “sente aqui ao lado e escute”. Escutar é mesmo a palavra certa. Porque a escuta que Sara propõe é coletiva, social, política, ancestral. Uma escuta que não se quer vertical — ainda que esteja por trás da câmera, há um esforço real para que sua presença se iguale à de quem é filmado. Um gesto de equidade, que transforma protagonistas em narradores, a própria câmera em instrumento de vivência compartilhada.
Mesmo nos filmes de tom mais institucional, como os curtas sobre gravidez, trânsito ou campanhas de saúde pública, a sensibilidade da diretora atravessa tudo. Há uma delicadeza de linguagem e montagem, um didatismo sem arrogância, que torna essas produções um abraço: o da cineasta para com quem vive e para com quem assiste. É raro encontrar uma voz autoral tão convicta e, ao mesmo tempo, tão generosa.
Nos primeiros curtas, como “Iré a Santiago“ ou o filme sobre a fábrica de tabaco, é nítida a influência do cinema moderno, mas com uma personalidade de ritmo próprio — quase como se a montagem acelerada, repleta de intervenções gráficas e sobreposições, já antecipasse os estilos pós-modernos de hoje. Há algo de Jorge Furtado nesse espírito: na inteligência do corte, na ironia política fina e na dinâmica entre texto e imagem. Sara cria, com poucos minutos, uma narrativa viva e pulsante, que parece nos conduzir como em um passeio — por vezes sério, por vezes cômico — pela alma de Cuba.
Sua obra se estrutura não apenas em temas, mas em atmosferas. “Poder Local, Poder Popular” e “Horas Extras Trabajo Voluntario” escancaram o grito de denúncia contra os sistemas exploratórios que fazem do corpo humano sua principal engrenagem. O corpo como força de produção, como máquina, como instrumento da falsa promessa de progresso. Aqui, mais do que nos outros filmes, há uma urgência de ruptura — não com o socialismo cubano, mas com as contradições de qualquer estrutura que se afaste do povo que deveria servir. Sara não mira um inimigo fácil; seu cinema pensa Cuba por dentro, com o afeto de quem acredita na mudança, mas sem ilusão.
E nesse ponto, é impossível não pensar no Brasil. Em como as semelhanças entre os dois países — sobretudo no modo como o povo vive, resiste e se expressa através da arte — parecem formar um espelho. A arquitetura barroca que molda cidades e memórias, a luta histórica da classe trabalhadora, a energia vibrante dos movimentos sociais e políticos, tudo isso está incrustado na cultura popular, nos modos de vida, nas ausências e nas presenças. O cinema de Sara, com sua escuta sensível das ruas cubanas, ecoa também nas vielas brasileiras. O gesto de registrar, com poesia e contundência, a realidade de um povo atravessado por séculos de opressão, mas ainda assim dançante, criativo, combativo, tem ressonância imediata em qualquer espectador brasileiro atento.
No entanto, é em “De Cierta Manera”, seu longa-metragem e último filme, que essa cineasta encontra o ponto máximo de sua arte. Ali, tudo pulsa: a ficção e o documentário, o urbano e o histórico, o afeto e a política. É impossível não lembrar de Kleber Mendonça Filho — em como ele transforma a geografia de Recife numa entidade viva, respirando através dos muros, das ruas e dos sons de seus filmes. Sara faz o mesmo com Havana. Mais do que cenário, Havana é uma extensão dos personagens, um organismo que guarda as dores, as desigualdades e os sonhos de seus habitantes.
Ao assistir à sua filmografia de forma contínua, nota-se também uma progressão: Sara não apenas refina seu estilo, mas se aprofunda em suas perguntas. A espiritualidade, a negritude, a educação, o gênero, o afeto, a sexualidade — tudo isso está presente, sem jamais parecer uma pauta protocolar. Sua força está justamente em tecer esses temas a partir de vivências, de corpos reais, de olhares verdadeiros. O documentário, para ela, é fantasia que toca a realidade com as mãos suadas do dia a dia.
Mais do que diretora, Sara Gómez foi uma cronista do seu tempo, uma artista que ousou filmar a vida comum com a potência de um cinema grandioso. E talvez por isso seu cinema permaneça tão vivo. Porque, em vez de querer explicar Cuba para o mundo, ela preferiu escutá-la, habitá-la e compartilhá-la. E fez isso como quem escreve cartas: pessoais, políticas, eternas.














