O alemão Christian Petzold é um dos artistas mais especiais trabalhando no cinema mundial na atualidade: seus filmes não são fábulas, mas, ao mesmo tempo, possuem uma característica de parábola; são dramas humanos com um estranho encanto, e uma vez que começam, o espectador muitas vezes não consegue parar de ver. No início da carreira, a musa de Petzold era a atriz Nina Hoss; porém desde Fênix (2014) ele começou uma nova parceria, agora com a atriz Paula Beer, que parece ter ampliado a magia dos seus filmes.
Petzold e Beer voltam a trabalhar juntos em Miroirs No. 3, exibido na Um Certain Regard no Festival de Cannes 2025. É mais um filme que, quando começa, você não sabe para onde vai, e todas as surpresas são ora interessantes, ora gratificantes dos pontos de vista narrativo e emocional.
É o tipo de filme que funciona melhor quanto menos o espectador souber sobre a história. Para mencionar somente o básico e o começo do filme, é sobre uma jovem (interpretada por Beer) que sofre um acidente junto com o namorado, do qual já estava se distanciando. O acidente acontece perto da casa de uma senhora (Barbara Auer), e ela e a família acabam abrigando a moça enquanto ela se recupera. Aos poucos, a protagonista vai adotando outra vida. Mas de modo surpreendente, e sempre com uma delicadeza narrativa ímpar, as peças da história vão aos poucos se encaixar para gerar um forte drama pessoal em torno de todos os personagens.
Beer é um mistério aqui – talvez mais do que em suas atuações anteriores em obras de Petzold. Mas de novo, os dois juntos conjuram aqui um truque de mágica, uma narrativa que vai se revelando aos poucos e sem um momento descartável – com apenas 1h26 minutos, o controle narrativo do diretor é excelente para nos emocionar, e em alguns momentos, fazer rir também. Há um toque de Ingmar Bergman aqui, sem dúvida, um jogo narrativo e emocional que começa com duas mulheres num local isolado – até o título, que remete a uma peça musical, também contribui para isso, a exemplo de um Sonata de Inverno (1978) do diretor sueco.
Além da atriz principal, todos os outros intérpretes se mostram excelentes em seus desempenhos modulados, incluindo o filho adulto da família, interpretado por Enno Trebs. Há uma eletricidade indefinida entre os atores que perpassa para o filme, que nos entrega as respostas ao final, mas não do jeito que esperamos.
Embora esteja um degrauzinho abaixo dos mágicos Undine (2000) e Afire (2023), os mais recentes do diretor, Miroirs No. 3 é outra obra única criada por Christian Petzold. Apesar de ser um filme sobre uma mulher que ganha uma segunda chance em sua vida, a catarse emocional é diferente aqui da que vemos em tantos outros filmes. Aqui, o cineasta cria mais um drama psicológico esquisito, mas ao mesmo tempo acessível; e com momentos bizarros, mas completamente humanos. Em mais um ótimo trabalho de um diretor que ainda não errou, o resultado aqui é novamente mágico. Apenas veja, e se entregue.













