De Clint Eastwood a Brady Corbet, Caio Pimenta traz as previsões iniciais para a aguardada disputa de Melhor Direção do Oscar 2025.

CORRENDO POR FORA

Oito nomes estão bem atrás nesta corrida de Melhor Direção. A lista inicia com cineastas que conhecem bem a categoria.

O Robert Zemeckis concorreu uma única vez na categoria e já saiu com a estatueta por “Forrest Gump”. O diretor chega com a ambiciosa proposta de “Here”, um drama ambientado em um único lugar que se passa ao longo de diversas épocas da humanidade mostrando todos que lá passaram. Sem a exibição do filme até o momento, a presença dele é mais do que incerta.

Na grandiosa lista de Melhor Direção do Oscar 2020, o Todd Philips era o patinho feio da turma. Se ele já pode agradecer aos céus por aparecer ali, agora, somente um milagre improvável para chegar por “Coringa 2”. Ambição não falta em uma sequência que não faz o menor interesse em agradar aos fãs, mas, ficando longe de costurar bem todos os gêneros que aborda.

Se 2024 teve a Justine Trier em Melhor Direção, tudo indica que não haverá presença feminina na categoria para a próxima temporada. A Marielle Heller passou longe de agradar com “Canina”, comédia com a Amy Adams que dificilmente dobraria a Academia. Se em condições normais, a Payal Kapadia teria dificuldades para aparecer aqui, a esnobada da Índia em “All We Imagine as Light” praticamente sepultou quaisquer possibilidades.

Especialista em colocar suas protagonistas em Melhor Atriz, o Pablo Larraín não consegue quebrar as demais resistências no Oscar. As cinebiografias focadas nos dramas internos de personagens históricas como Jacqueline Kennedy, Princesa Diana e, agora, Maria Callas fogem do comum do gênero e parecem não agradar tanto a Academia e o público em geral. Tudo leva a crer que o chileno será deixado de lado novamente.

Da nova leva de diretores de terror do cinema norte-americano, o Robert Eggers é um dos mais queridos pela capacidade de construção visual e sonora da claustrofobia vistas em “A Bruxa” e “O Farol”. Agora, ele chega com uma nova e ambiciosa versão de “Nosferatu”. Para chegar ao Oscar, entretanto, dependerá demais da repercussão do longa quando estrear nos cinemas no fim do ano. Neste momento, deve ficar de fora.

A Emerald Fennell foi a última estreante a ser indicada em Melhor Direção. O Malcolm Washington, filho do Denzel, tentará com “The Piano Lesson” entrar para o time que conta com gente do naipe de Orson Welles e Sidney Lumet. A repercussão do longa perante a crítica, entretanto, parece ter deixado esta possibilidade muito longe de acontecer.

O Luca Guadagnino completa o time dos candidatos praticamente sem chances. Se “Queer” não empolgou pela passagem em Veneza, “Rivais” deve acabar sendo esquecido. Uma tristeza para um dos melhores trabalhos de 2024 com um diretor sabendo explorar toda a sensualidade de um elenco para lá de talentoso e construir uma das sequências mais energéticas dos últimos anos. Um erro feio da Academia.

PODE SURPREENDER

Chegou a hora dos candidatos que podem surpreender na corrida por uma vaga em Melhor Direção. Para começar, tem a Coralie Fargeat.

Única mulher com alguma chance de ser indicada, a Coralie Fargeat faz um body horror crítico a Hollywood e ao showbusiness como um todo sobre a pressão dos padrões de beleza para as mulheres. Sinto, infelizmente, que o estilo sem concessões de “A Substância” deve acabar igual a Julia Ducournau, de “Titane”.

Vejo mais possibilidades da Fargeat em Roteiro Original, prêmio que ela venceu no Festival de Cannes.

Jason Reitman

Não bastasse as indicações que teve com “Juno” e “Amor Sem Escalas”, o Jason Reitman ainda é um membro ativo da Academia: em 2022, por exemplo, ele assumiu um posto no Board of Governors no núcleo dos diretores. Agora, o cineasta retorna aos bons tempos com “Saturday Night”, filme sobre os bastidores do primeiro programa do maior humorístico da TV norte-americana. Apesar dos elogios obtidos nas passagens pelos festivais deste segundo semestre, considero que o Reitman também tem mais chances em roteiro do que aqui.

O Mike Leigh busca o tradicional posto do cinema britânico na categoria, ocupado nas últimas edições por nomes como Jonathan Glazer, Martin McDonagh e Kenneth Branagh. “Hard Truths” é um retorno aos dramas mais intimistas ao lado da parceira Marianne Jean-Baptiste de “Segredos e Mentiras”. O diretor, entretanto, deu uma queda nas últimas semanas e parece distante das cinco vagas.

O Jesse Eisenberg também é outro que está perdendo fôlego, pelo menos, em Melhor Direção. Fora que o diretor de “A Verdadeira Dor” terá pela frente a concorrência interna na Searchlight Pictures de James Mangold, de “A Complete Unknown”.

Igual o Malcolm Washington, o RaMell Ross também é outro diretor estreante na ficção na busca por indicação. Elogiado em Telluride, “Nickel Boys” foi o filme de abertura do Festival de Nova York, sendo recebido com bastante entusiasmo. Há quem compare o estilo de direção com Terrence Malick, fora a inevitável comparação com o Barry Jenkins pela temática de “Moonlight”. Pode crescer na temporada.

O Greg Kwedar traz como principal mérito em “Sing Sing” mesclar um elenco de atores profissionais com não-atores que interpretam personagens inspirados nele mesmo. É o típico desafio que, quando dá certo como foi o caso, acaba sendo reconhecido pelos seus pares. Se a A24 fortalecer o longa até as indicações, é um nome a ser observado.

Walter Salles

Da turma internacional, temos o Walter Salles e Mohammad Rasoulof. O brasileiro quer entrar repetir o feito de Hector Babenco e Fernando Meirelles. A repercussão positiva a “Ainda Estou Aqui” segue crescendo nos EUA, mas, até o momento, ele ainda está longe de sonhar com a possibilidade figurar entre os finalistas.

Situação bem diferente do Mohammad Rasoulof: além dos elogios unânimes a “The Seed of the Sacred Fig” visto em Cannes, há o contexto político. O diretor foi condenado à prisão pelo regime opressor do Irã e acabou fugindo do país.

Logo, a indicação do Rasoulof seria um posicionamento político bem claro de Hollywood. A questão é como estará o conflito no Oriente Médio, afinal, se posicionar hoje sobre o Irã, acaba por resvalar também nas ações de Israel. Será que a Academia irá querer mexer neste vespeiro? Só o tempo dirá.

Filmografia: Ridley Scott - Arte + Comércio

E o Ridley Scott? Agora vai? Já estivemos aqui nesta mesma situação de muita expectativa pelos trabalhos dos britânicos e o resultado foi um grande e sonoro nada. Se a continuação de “Gladiador” coloca esperança pelo cineasta já ter feito um épico romano com toda a excelência técnica que levou ao Oscar de Melhor Filme, por outro lado, George Miller, por “Mad Max”, em 2016, foi a última vez que a categoria prestigiou um candidato vindo de uma sequência.

A resposta definitiva virá com o lançamento no circuito comercial de “Gladiador 2”.

O Clint Eastwood encerra o time que pode surpreender neste Oscar. “Jurado Número 2” é o supostamente a despedida dele da direção. Logo, como a Academia vai reagir? Deixa de lado porque já venceu duas vezes a categoria? Ou aproveita um ano tão em aberto, o homenageia com quinta indicação e, quem sabe, o terceiro Oscar?

Igual ao Ridley Scott, somente a estreia do drama de tribunal será capaz de resolver o mistério.

GRANDES CHANCES

Hora de falar dos candidatos com grandes chances lutando por três vagas no Oscar 2025 de Melhor Direção.

O Edward Berger bateu na trave na categoria com “Nada de Novo de Front”, mas, pode conseguir a sonhada indicação com “Conclave”. A precisão técnica do alemão voltou a ser elogiada pela imprensa internacional com entrega de tensão cada vez mais características dos filmes dele após a passagem em Telluride. É aquele nome que está no radar da Academia e não deve demorar para ser lembrado pelo Oscar.

Figura carimbada do cinema francês e do Festival de Cannes, o Jacques Audiard é um caso peculiar: mesmo tendo uma Palma de Ouro com “Dheepan”, ele não chega a convencer totalmente o mundo cinéfilo nem a imprensa internacional com obras consideradas moldadas demasiadamente para o circuito de festivais. A consagração de “Emilia Pérez”, um drama com policial com suspense e musical, é o longa mais aclamado dele desde “O Profeta”. É a maior chance dele em aparecer no Oscar de Melhor Direção em toda carreira.

Falando de diretores que não despertam muitos amores tem o James Mangold: com certeza vocês já assistiram algum filme dele – “Garota Interrompida”, “Johnny & June”, “Identidade”, “Encontro Explosivo”, “Logan”, “Ford Vs Ferrari” e o último Indiana Jones. Em todos eles, porém, a impressão é que a direção dele nunca é o que as obras têm de maior destaque.

“A Complete Unknown”, cinebiografia do Bob Dylan, deixa a impressão de que repetirá a tendência até pelo caminho mais autoral que a categoria vem buscando nos últimos anos. O tradicionalismo, entretanto, ainda surge vez ou outra como mostrou o Kenneth Branagh em 2022 e o Tom McCarthy em 2016.

O Pedro Almodóvar estreando no cinema americano é tentador para a Academia. A vitória em Veneza contribui bastante para o hype em torno dele, mas, como será que reagirá a ala internacional ao vê-lo precisar ir para os EUA para ter chances de ganhar em Melhor Direção? Fora toda a comparação que existe de “O Quarto ao Lado” com a filmografia do espanhol. Acredito que tenha chances de indicação e até de vitória, mas, terá estes dilemas pela frente.

Se em 2017, o Denis Villeneuve foi uma grata surpresa na lista de indicados por “A Chegada”, a esnobada por “Duna” dois anos atrás ainda está mal digerida pela Warner. Agora é a chance da redenção para o canadense.

Favorece a ele o fato da corrida não ter nenhum candidato dominante nem estar tão disputada assim, logo, há um bom espaço para encaixá-lo. Porém, há uma sensação de que como o desfecho da saga deve acontecer no próximo filme é possível esperar para indicá-lo mais adiante.

Fechando o pelotão com grandes chances temos o Steve McQueen: o britânico já está na história da Academia por ser o único diretor negro a ter comandado um ganhador de Melhor Filme com “12 Anos de Escravidão”. A missão para esta temporada será ainda mais desafiadora: ser o primeiro cineasta negro a ganhar Melhor Direção.

“Blitz” cheira Oscar demais com uma história emocionante de uma busca do reencontro de um filho com a mãe aliado uma qualidade técnica invejável. O problema para o diretor é que, em meio a conflitos tão urgentes, estaria o mundo disposto a mais um filme sobre a Segunda Guerra isso logo após a consagração de “Oppenheimer” e Christopher Nolan?

OS FAVORITOS

Nesta corrida tão embolada em Melhor Direção sem nenhum favorito absoluto, eu considero somente dois nomes garantidos na categoria. O primeiro deles vem consagrado de Cannes.

A Palma de Ouro para “Anora” serviu como um respiro bem-vindo para o cinema americano. Cria da cena independente, o Sean Baker é daqueles nomes que representa um alívio de originalidade para uma indústria cada vez mais dependente de continuações. Justamente este sentimento a partir de um filme que consegue ser um pouco de tudo – drama, comédia, romance, suspense – pode ser capaz de dar o Oscar de Melhor Direção para ele.

Claro que “Anora” não é o tipo de obra que a Academia costuma premiar um diretor até pela despretensão aparente da proposta inicial, especialmente, se comparados últimos vencedores da categoria. Ainda assim, o vigor que o Sean Baker representa a Hollywood pode compensar este fator. Nome para ficar de olho.

Na mesma linha de uma revigorada na cena dos EUA aparece o Brady Corbet, vencedor de Melhor Direção em Veneza.

O diretor de “O Brutalista” opera em outra frequência: para além das 3h30 do drama, há a ambição de gravar em 70mm, algo muito raro na indústria.

Isso aliado à condução elogiadíssima do filme que tem tudo para ser um dos líderes da temporada coloca o Corbet, neste momento, na dianteira em busca da estatueta.

SE OS CINCO FINALISTAS FOSSEM HOJE…

  • Brady Corbet, por “O Brutalista” 
  • Edward Berger, por “Conclave” 
  • Jacques Audiard, por “Emilia Pérez” 
  • Sean Baker, por “Anora” 
  • Steve McQueen, por “Blitz”