PARA LER OUVINDO: “Pelas Ruas Que Andei” – Alceu Valença
Andarilho é aquele que anda muito, o próprio nome já entrega a etimologia da palavra. Aquele que está sempre vagando, andando, por conta própria, ou a serviço de alguém. É uma pessoa solitária que vive – ou sobrevive – por conta de alguma utopia ou dever. Por utopia, entende-se, aquele lugar em perfeita ordem, harmonioso.
Dois pesos e duas medidas que se interconectam em um ideal. Uma ideologia, a busca incessante para encontrar algo ou se encontrar em meio ao turbilhão de gente e situações que nos cercam e nos atravessam como uma flecha fumegante.
Dora (Sinara Teles) carrega em seu corpo o pesar dos anos, das perdas, das dores e de suas andanças. Seus pés são pesados, seu olhar é duro, sua expressão corporal está sempre na defensiva na proteção do seu eu. Tão jovem, Dora é uma andarilha que, utopicamente, procura por Suçuarana, um lugar bonito de se viver, segundo a sua falecida mãe que estampa a única foto e lembrança de um passado menos sofrido.
Dora é uma andarilha não apenas por não se encaixar nos lugares que ela é ou não é bem-vinda e que seu corpo seja usado como mão de obra explorado. Dora é uma andarilha para viver e manter viva sua mãe e sua avó, que passaram pela vida exploratória e não são lembradas. Portanto, para ela, não há meio termo em breves momentos de pequenos prazeres. Ela sabe que, ao final, seus pés e sua utopia são os estímulos para continuar andando.
Dirigido em quatro mãos por Clarice Campolina (Canção ao Longe) e Sérgio Borges (O Céu Sobre os Ombros) e com uma direção de fotografia tão simples quanto incômoda (no contexto do filme) de Ivo Lopes, “Suçuarana” é um daqueles filmes que impacta por muito pouco. As poucas palavras se condensam nas ações dos personagens, dos olhares e no contexto de um Brasil entregue as mineradoras, ao extrativismo, aos ruralistas, enfim, que sugam os bens naturais que nos sãos doados e sugam esses corpos-territórios em favor de gana de poder e capital. Transformando vidas, sociedade, comunidades entregues neste sistema precário, restando apenas trabalhar y trabalhar para sobreviver e enriquecer aqueles que não calejam as suas mãos e não enchem de bolhas seus pés suados pelas andanças em procurar o que poderia e deveria ser seu.
Mesmo com resoluções um tanto fáceis, enquanto acolhidas para Dora, “Suçuarana” é um filme autêntico, representado por essa protagonista tão focada, desconfiada e cheia de mágoa e saudade no peito.
Há de se destacar a presença de Encrenca (Tony Star), um labrador (gente, sou péssimo para raças, se estiver errado, favor corrigir) que, como uma entidade, volta e aparece na vida de Dora para lhe nortear ou simplesmente ser o afago que tanto aquele corpo andante precisa. Um dos melhores momentos que pude ver na interação entre atriz e cão nos últimos tempos. Além de roubar a cena, é importantíssimo para a jornada da heroína.
Com uma pegada road movie árido, “Suçuarana” é a personificação do outsider, daquele que vive à margem com tão pouco e conformado com sua situação, não por falta de ambição, mas pelas forças que se perderam pelo caminho, mas que continua nos pés.
O filme estreia esta semana e já passou por diversos festivais, entre eles, Festival de Roterdã 2025 e 57° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2024, onde venceu cinco prêmios, entre eles, melhor atriz para Sinara Teles.













