Pária no socialismo, pária no capitalismo, a fotógrafa Libuše Jarcovjáková é quase como a autora principal do próprio documentário “Eu não sou tudo aquilo que quero ser”. Feito essencialmente de suas fotografias. Com a sua narração. Com o seu diário como base. Em um relato autobiográfico que captura em movimento em som o que ela já tinha capturado em imagem desde a juventude na Tchecoslováquia na década de 1960 até a queda do muro, em Berlim, em 1989.   

A diretora de verdade, Klára Tasovská, monta “Eu não sou tudo aquilo que quero ser” e a estrutura muito submissa a essa artista que só depois da vida adulta teve seu reconhecimento. Em um filme que abraça esse ponto de vista literal e político também. Para o bem ou para o mal. Já que faz falta por vezes entender, por exemplo, por que a família dela era considerada problemática pelo regime.   

O bloco do leste, sob o guarda-chuva pesado da União Soviética. Socializado a força e não por revolução depois da guerra. É só o primeiro capítulo de um filme que é uma colagem de outros que – assim como alguns dos retratos que ela faz – parecem fora de foco a princípio. Mas que revelam seus temas com o tempo. 

Impedida de estudar por questões políticas familiares, mas com uma estrutura de estado para sustentar sua revolta. Libuše sempre caminha pelas marginalidades das sociedades que são responsáveis pela sua marginalização. Porque o que ela produz é arte. Na forma mais pura e inútil (no melhor dos sentidos) que a arte pode ter.  

Um trabalho improdutivo quando comparado ao chão fabril ou ao serviço essencial por onde ela passou também. Em uma gráfica, trabalhando como camareira, como qualquer outra coisa. A câmera na mão sempre pareceu tomar conta de tudo. Arte como obsessão. Uma fotografia instintiva. De tudo e de todos ao redor. De si por completo. Do sexo ao trabalho, à vida noturna à vida diurna. Fora de casa, dentro de casa.  

Em um mundo definido pelo trabalho, Libuše Jarcovjáková é indefinida. Caminhando ao redor e registrando o que pode e o que não pode. Uma cidadã que falha em cumprir suas atribuições proletárias. Mas mesmo quando inevitavelmente ela atravessa a cortina. Ela logo percebe. Depois de um período lúdico no Japão. Que o capitalismo também não tem lugar para ela. 

De subemprego a subemprego, ela entrega seu corpo e seu tempo em troca da possibilidade de continuar fazendo o que faz. Fotos. Até que eventualmente. Talvez muito tarde. Ela é de algum jeito reconhecida por isso. Sem romantismos. Sem contos de fada. Sem discurso de quem acredita sempre alcança. Por sorte. Por acaso. Porque alguém parou pra olhar. 

“Eu não sou tudo aquilo que quero ser” é um filme que serve a isso. Um resgate. Um reconhecimento. Do trabalho invisível que ela sempre teve. De quando adolescente decidiu fotografar sozinha. Ensinando a si mesma. Tímida. Distante. Depois próxima. Íntima.  

Nessa vida de quem nunca não está fotografando, ela ajuda a construir um pedaço da história que gostaria de ser esquecido por muita gente. A homossexualidade que não era punida, mas que era tratada como inexistente. Que precisava ser escondida. Abafada. Os dois abortos que ela fez a muito custo pela estrutura estatal. O sexo. Tudo aquilo que existe entre o trabalho. Nas fotos dos operários dormindo entre um turno e outro e que o regime achava que difamaram a imagem do proletariado tcheco.  

Construído a partir do elemento mais básico das fotografias e da narração da própria. O filme ganha muito estofo pelo uso de som também. De efeitos sonoros que vão junto da voz de Libuše dar uma vida às fotos. Por vezes, em repetições de quadros. Criando um movimento. Fazendo ressurgir uma época. Um lugar.  Vozerio, garrafas, copos, passos, miados de gatos, ronronares de gatos. Trânsito. Barulho. Cidades.  

Na narrativa política da coisa, pode se ter algo de incômodo. Porque de alguma forma o filme perpetua a partir dela. Talvez sem querer. Talvez sem perceber. A ideia tosca de Fukuyama de que a história acabou em 89. De que a queda do muro foi esse grande desfecho apoteótico para o século XX. O que inevitavelmente nos faz, 35 anos depois, perguntar se ela percebeu o que é realmente esse novo mundo. Se ela ainda questiona. O que ela fotografa desde então.  

Não fica claro se esse encerramento abrupto da história de alguém que ainda está viva é fruto dela mesma ou de uma tentativa da diretora de encaixar essa vida em um período muito específico.  

Ainda que, no todo, o “problema” que surge disso seja justamente o do espectador querer continuar ali. Indo mais longe nesse filme que faz o trabalho de visibilizar uma fotógrafa que passou a vida no processo de impedir a invisibilização de uma parte do mundo.