Existem temas que exigem abordagens sensíveis, cuidadosas e com certa dose de didatismo e é exatamente isso que o diretor Justin Baldoni faz em “É Assim que Acaba”. Adaptado do livro homônimo de Colleen Hoover, o filme mostra de forma evidente como a violência ocorre dentro de um relacionamento amoroso e como quebrar o ciclo muitas vezes imposto, o que por si só já é um grande trunfo na produção.

Acompanhamos a jornada de Lily Bloom (Blake Lively), dona de uma floricultura que se apaixona pelo neurocirurgião e sedutor irmão da melhor amiga, Ryle (Justin Baldoni). Vemos todo o processo de construção do relacionamento até entrar em um espiral de agressões contra a moça. Neste processo, somos também apresentados ao passado de Lily com a mãe, outra vítima de violência no lar, e seu crush Atlas (Brandon Sklenar).

A narrativa gira em torno de como o ciclo da violência doméstica ocorre e as reações diante deste. Lily conviveu com as agressões do pai à mãe, Atlas foi expulso de casa por se meter nos ataques violentos que a mãe recebia dos parceiros. Ambos lidam de forma diferente com a situação, o que é evidenciado nos comportamentos na idade adulta. Este é um acerto do roteiro de Christy Hall, que coloca os personagens já na casa dos trinta anos, o que possibilita um distanciamento da adolescência e ainda uma compreensão mais madura de quem são e porquê agem como tal.

Nesse sentido, é importante destacar a sensibilidade com a qual a história foi construída. Não temos uma narrativa piegas nem tampouco que pese a mão na abordagem; tudo é amarrado de forma a fazer com que as pessoas se identifiquem com os protagonistas, comprem a narrativa do romance entre eles para então mergulhar na toxicidade que os cerca. No entanto, em momento algum, “É Assim que Acaba” romantiza o que ocorre entre Lily e Ryle.

No primeiro momento, a sensação que se tem é de estarmos acompanhando uma comédia romântica. O casal se conecta pela magia das circunstâncias, ela reluta, ele insiste e abre mão de suas perspectivas e convenções para ficar com a bela mocinha, que parece esconder um trauma e uma história inacabada no passado. Todo esse alinhamento poderia nos entregar um romance, mas a convivência deixa transparecer o lado obscuro dele.

Há sagacidade em como a direção e o roteiro apresentam a violência com ambiguidade. Afinal, ele quis jogar a tigela nela, empurrá-la da escada ou tudo foi circunstancial? A escolha de nos fazer ver os dois lados possibilita um grau maior de compreensão sobre a violência doméstica e ainda fazer com que mulheres que vivem em situações semelhantes possam reconhecê-las em tela e tomar uma decisão como a de Lily.

A direção de Baldoni é um grande acerto nesse sentido ao imprimir o tom certo, sem red flags — afinal quem olha para elas fora a galera do antigo Twitter — ou romantização da toxicidade e da violência. Parte disso se deve ainda a cinematografia de Barry Peterson (“Dungeons & Dragons: Honra entre Rebeldes”) que muda o enquadramento e fecha os planos de acordo com a tensão que a narrativa necessita. A parceria entre os dois diretores é fundamental para que um filme romântico se transforme em um drama sobre violência. 

Preciso destacar, contudo, que o vai e vem entre passado e presente é um dos pontos menos relevantes para a trama. Sei que é importante para a percepção de como Lily lida com relacionamentos amorosos, mas acaba ficando solto, uma vez que esta história não é sobre Lily, Atlas e o passado deles, mas sobre ela e Rilly. Uma herança chata do livro adaptado que também segue esse mesmo caminho, nem todo mundo é Stephen King que consegue ir ao passado, presente e futuro numa mesma página de forma magistral.

Apesar disso, deve-se tirar o chapéu para a pessoa que encontrou Isabela Ferrer: há uma semelhança latente entre ela e Blake, além da moça conseguir emular muitos dos movimentos corporais da co-protagonista. No entanto, olho para Lively e vejo Serena Van der Woodsen, com os mesmo trejeitos, tiques e comportamentos que a atriz tinha quando interpretava a princesinha do Upper East Side. Já Baldoni também acerta o tom de Rilly, oferecendo o charme, a sedução e o mistério que o personagem pede.

Devo dizer, entretanto, que, apesar da construção narrativa assertiva, quando “É Assim que Acaba” terminou, fiquei com a sensação de que ele patinou e não conseguiu oferecer profundidade às discussões em torno da violência doméstica. Não tira sua sensibilidade e os acertos de Baldoni, mas deixa o gostinho de que poderia ir além do que Colleen Hoover propôs em seus escritos.