A diretora paulistana Juliana Rojas já não é mais uma promessa para o cinema nacional. É uma certeza com seu olhar apurado, crítico, feminino passeando pela fantasia. Depois dos aclamados “Trabalhar Cansa” (2011) com Marco Dutra, “Sinfonia da Necrópole” (2014) e “As Boas Maneiras” (2017), Rojas nos entrega mais um trabalho coeso e claustrofóbico em “Cidade; Campo”.
O longa é dividido em duas histórias. Na primeira somos apresentados à Joana (Fernanda Vianna), agricultora de uma região rural de Minas Gerais que foi dizimada pelo rompimento da barragem de Mariana. Sem opção, parte para São Paulo e se hospeda na casa de sua irmã, Tânia (Andrea Marquee) que mora com seu neto, Jaime (Kalleb Oliveira, adorável!). Joana precisa reaprender a viver na cidade.
Na segunda parte-esquete, temos Flávia (Mirella Façanha) e Mara (Bruna Linzmeyer) que são da cidade e partem para o campo quando a primeira herda as terras do seu pai falecido recentemente. Flávia e Mara precisam reaprender a viver no campo.
CORPOS EM AMEAÇA
Para além do enredo central, Rojas imprime um certo realismo fantástico para dissecar uma crítica social e também o papel da mulher na sociedade quando esta se vê sozinha em um novo mundo, uma nova realidade. Joana é uma mulher do campo, passou por um trauma terrível e sofre com a distância do filho, de semblante pesado, cansado, mas em que nenhum momento chora as lamúrias; não há muita opção senão seguir em frente, não é mesmo? Em certos momentos, sua aura está tão pesada que é como se não existisse mais, mas uma personagem que forjou para sobreviver e ainda tentar se divertir com seu sobrinho-neto ou as colegas do novo trabalho.
Em contrapartida, Flávia e Mara chegam cheias de vida e com toda aquela energia juvenil que aos poucos são absorvidas por aquele ambiente aberto, de muito verde, com animais, histórias perdidas através de objetos do pai e isoladas.
É a cidade-fantasma de Joana e o campo-fantasma de Flávia e Mara, envolvidas em um novo ambiente que não dominam e estão inseridas tão somente pela ação do homem. Veja bem, quem são os responsáveis pela quebra da barragem? Pois é. E o único homem que as meninas têm contato é o peão da fazenda que sugere que usem uma arma, isto é, seus corpos mesmo em seu território não estão à salvo.
‘trabalhar para só existir’
Chama a atenção a predominância de duas cores nas duas histórias. A primeira lilás e a segunda azul. Em uma pesquisa rápida no Google, o lilás representa à espiritualidade, à intuição e a sensibilidade, elementos que condizem com a Joana; mesmo devastada por dentro, ela mantém um certo equilíbrio, uma espiritualidade para se manter sã, pois precisa viver, desistir não pode ser uma opção para ela, mesmo em seus devaneios (como na belíssima cena do cavalo branco lhe encarando em plena avenida) ela se sustenta e esse peso é sentido por quem assiste. Já a cor azul, presente na segunda parte, remete à segurança, tranquilidade, força e segurança, tudo que Flávia e Mara não possuem nesse novo momento de suas vidas, mas que devem encarar isto como uma missão, principalmente Flávia.
A inteligência de Rojas vai além da questão social e feminina. Há questões de trabalho e as novas formas de se ganhar a vida em usos de app, mas nem sempre pode ser considerado um amparo ao trabalhador, como esbraveja Ângela (Preta Ferreira): “trabalhar só para existir”. O grande achado é o seu elenco composto por atores próximos à nossa realidade e em seus corpos reais. A cena de sexo, por exemplo de Flávia (Mirela é uma atriz plus size) e Mara (Linzmeyer, então sex symbol e despida de qualquer vaidade) é de uma beleza física genuinamente interessante de acompanhar.
“Cidade; Campo” é aquele tipo de filme que só cresce a cada lembrança. Confesso que não comprei a segunda história logo de cara, gosto mais da primeira, mas, à medida que escrevo esse texto só consigo pensar em como o cinema nacional é um campo riquíssimo e não para de nos surpreender positivamente.
E isso se manifesta nos prêmios recebidos: “Cidade; Campo” venceu Melhor Direção na Mostra Encounters no Festival de Berlim 2024; Prêmio do Júri da Crítica no 52° Festival de Cinema de Gramado, além do Kikito de Melhor Atriz, merecidamente, para Fernanda Vianna.














