Tornou-se um evento canônico brasileiro afirmar que, quando se consegue algo pela terceira vez, você pode pedir música. É dessa forma que o jornalista e realizador audiovisual Gabriel Bravo de Lima pode se sentir depois de ser selecionado pela terceira vez para o Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte. Ele chega ao evento com “Na dança que cansa voavas”, curta-metragem que acompanha o término de uma relação a partir, principalmente, da visão de uma das personagens envolvidas. 

“Acredito que as reflexões sobre o término do meu último relacionamento tenham sido a inspiração para esta narrativa”, contou o diretor enquanto conversávamos sobre este projeto, seu modo de fazer cinema e as emoções de voltar ao Olhar do Norte. 

Cine SET – Fale sobre o seu filme. Sobre o que se trata?

Gabriel Bravo de Lima – O filme é um romance que acompanha o término de uma relação a partir principalmente da visão de uma das personagens envolvidas. É uma história construída em três capítulos, cada um deles marcado por um poema, misturando passado, presente e futuro daquelas personagens. 

Cine SET – Você costuma dar nomes intrigantes aos seus filmes. “Na dança que cansa voavas” faz referência a que? Como foi o processo de escolha desse título?

Gabriel Bravo de Lima – O nome foi retirado de um trecho do poema “A Valsa”, do Casimiro de Abreu. É um poema que eu gosto bastante e conheço há um bom tempo. Essa frase e uma boa parte do poema sempre me remeteram a uma ideia de contato físico, talvez de sexo realmente, um encontro íntimo entre dois amantes, algo bem voltado as reações em nosso corpo pelo ato de gostar de alguém. Parecia conversar com certos aspectos do filme.

Cine SET – Quais as suas principais referências quando conta uma história no cinema? E para este filme?

Gabriel Bravo de Lima – Para mim é sempre uma pergunta difícil de responder. Acho que provavelmente os filmes da Agnès Varda, do Jean Luc-Godard e do Abbas Kiarostami são as minhas referências maiores, mas não sei dizer ao certo o quê deles têm nos meus filmes. 

Para esse projeto, especificamente, acho que os últimos filmes do Júlio Bressane e da Celine Sciamma foram as referências mais claras, junto com o trabalho de videoarte da Sônia Andrade. Além das referências literárias neste filme com Adélia Prado, Maya Angelou, Jorge Luis Borges e Paulo Coelho. Eu, inclusive, prefiro a palavra apropriação, no melhor sentido possível, do que referência. Porque costumo deixar minhas inspirações bem óbvias.

Além dos cineastas que já citei, encontro inspiração na obra de Rafael Ramos, que provavelmente são os trabalhos que me influenciaram, por se tratar de um cinema feito em Manaus. Até aqui, as possibilidades de cinema que vislumbrei são as que já existem nos filmes do Rafael. O último filme da Adriana de Faria, “Cabana” também tem uma influência óbvia em “Na dança que cansa voavas”.

Cine SET – Como foram as gravações? Gravaram em quanto tempo? Como foi a sincronia da equipe? 

Gabriel Bravo de Lima – As gravações foram bem tranquilas. Eu prezo muito pelo conforto de todo mundo que está no set, apesar de todas as limitações financeiras e de tempo que uma produção independente tem. Eu também não sou um cineasta muito ortodoxo; o roteiro desse filme foi sendo construído durante as gravações, junto das atrizes que assinam junto comigo. Então, tento não encher o saco da minha equipe já que muitas vezes eles vão estar sem instruções tão claras e isso já é meio estressante.

Gravamos em três fins de semana, com praticamente a mesma equipe do filme anterior que gravei. Temos uma ótima sincronia, apesar do cansaço que sempre acontece, acho que nos divertimos até.

Cine SET – Falemos sobre o elenco. Como foi a escolha e o trabalho com elas? Qual nome o público e a crítica devem ficar de olho?

Gabriel Bravo de Lima – O elenco tem três atrizes: Larissa Baraúna, Ágata dos Santos e Laís Baraúna. 

A Larissa e Ágata eu já havia trabalhado antes com elas nessas funções e foram escolhas muito naturais pra mim. As três são minhas amigas e pessoas que confio. A Ágata não é atriz profissional, mas está comigo desde meu primeiro filme e adoro trabalhar com ela, foi a pessoa com quem mais dividi pensamentos durante as filmagens. 

A Larissa é uma pessoa que enxergo um futuro brilhante, é uma atriz de muita entrega física, muito expressional, algo que sinto agregar muito a minha abordagem que costuma ser mais fria. 

Já a Laís trabalhou comigo no meu último filme e nesse como diretora de arte. A entrada dela como atriz foi por acaso, mas sinceramente acho que foi a melhor coisa possível. Por ela ser irmã da Larissa, elas possuem uma certa semelhança física que compõe bem o universo dessas personagens. Cria um pouco essa ideia do duplo, do fantasma semelhante, essa coisa que persegue todos os filmes que existem desde “Vertigo”.

Cine SET – Como esta produção dialoga com os outros filmes da sua cinematografia? Existe um fio que perpassa teus filmes – seja narrativo, técnico ou visual?

Gabriel Bravo de Lima – Existe um certo eixo temático que gosto de trabalhar, ligado às minhas questões sobre a ideia de família. Gosto de tensionar o significado da palavra e trabalhar justamente nesse limite da família enquanto estrutura de carinho e estrutura de opressão, de desprezo. 

“Na dança que cansa voavas” é voltado para o romance, mas ainda assim vejo nesse campo de morar com alguém, ter expectativas sobre o comportamento do outro, lidar com a ideia de construir uma relação e ser um casal, dentro das tensões de criar uma família. Mas isso faz parte do meu processo pessoal, o que aparece no filme geralmente é uma pequena parte disso, tanto que narrativa, técnica e visualmente meus filmes são bem distintos. A não ser pelo uso das músicas, um recurso estilístico que persiste em todos. 

Cine SET – E por falar nelas, como foi a escolha das músicas para esse curta em específico?

Gabriel Bravo de Lima – O roteiro que eu escrevi previamente tinha apenas três cenas, cada uma delas acompanhada por uma música. Eu não costumo escrever ou filmar e depois procurar uma música que se encaixe. Geralmente, já escrevo com a música que quero na cabeça, ou até mesmo ouço uma música e tenho ideias de cena. Tenho inclusive algumas músicas anotadas com cenas escritas. 

No caso de “Na dança que cansa voavas”, apenas a última música foi escolhida na montagem, mas porque a cena final mudou e então eu escolhi outra música para acompanhar. Mas foi o mesmo processo: ouvi uma música e senti que caberia em uma cena específica. Fui lá e mudei a cena. 

Cine SET – Se fosse escolher uma música para ser a trilha sonora dos seus filmes, qual seria?

Gabriel Bravo de Lima – “Feelings”, na voz da Nine Simone. 

Tenho uma playlist de músicas com cenas escritas e se eu tiver sorte, talvez consiga filmá-las um dia. 

Cine SET – Qual a sensação de ser selecionado pela terceira vez consecutiva para o Olhar do Norte?

Gabriel Bravo de Lima – É uma honra enorme. O Olhar do Norte representa muita coisa na minha vida, não sei se seria cineasta se não fosse pelo festival. Ser selecionado em todos os anos foi uma genuína surpresa. Talvez agora eu seja um dos diretores com mais participações, mas ainda sinto como se fosse o primeiro ano com o filme que fiz com amigos no início da faculdade.

Cine SET – Em quais projetos a sua produtora tem trabalhado no momento? Podemos esperar outras produções próximas além de “Na dança que cansa voavas”?

Gabriel Bravo de Lima – Estamos trabalhando em projetos tanto de curtas, quanto também em outras áreas do audiovisual. Acredito que tudo ainda está em estágio inicial, sem títulos e datas previstas. Não são projetos dirigidos ou escritos por mim; minha atuação no momento vai ficar mais na produção. Estou trabalhando em um novo roteiro, mas acredito que vai ficar para 2026 ou 2027. Porém, eu também acreditava que não ia lançar filme este ano e aqui estou.