Pode-se traçar uma linha reta que vai das pernas que bailavam ao som do soul até os pés descalços que hoje deslizam no passinho – ou, em se tratando de cinema, um raccord talvez seja mais apropriado. É essa continuidade que constitui o mote da obra de Emilio Domingos, documentarista que há alguns anos vem se firmando como um dos cineastas cariocas quintessenciais.
O que significa dizer, em outras palavras, que a sobrevivência e constante reinvenção das formas de expressão das populações negras, tal qual se constituem nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, é a chave de sua obra. Se há, portanto, um trajeto que ligue seu primeiro longa, “A Batalha do Passinho”, a este “Black Rio! Black Power!”, ele é traçado no avesso da cidade.
Faz sentido, então, que sua câmera se finque no simplório bairro suburbano de Rocha Miranda, primo pobre de Madureira, tão distante do badalo praiano da Zona Sul. Nos anos 1970, o lugar se transformou em algo como a Meca do Soul, enquanto o fenômeno dos bailes black varriam o subúrbio carioca. Essa foi a era do Black Rio.
É essa história que Domingos agora conta através de entrevistas com gente que viveu, dançou e organizou a festa. O cineasta deixa os entrevistados ditarem o ritmo. Há uma clara reverência aqui aos personagens, gente do naipe de Dom Filó e Carlos Dafé, o que é absolutamente compreensível. Em contrapartida, isso talvez deixe “Black Rio! Black Power!” um pouco preso demais – o que, em se tratando de um longa sobre grandes bailes efervescentes, talvez não seja o ideal.
É que se fala em “estética negra” durante a projeção e a gente se pergunta se o filme também não poderia tomar parte dessa estética para além das citações e fotos de arquivo. Melhor dizendo: se não seria possível propor uma forma documental que incorpore, e não só tematize essa forma de vida, essa sensibilidade black. O que implica perguntar quais são os cinemas possíveis e se os modelos tradicionais realmente dão conta daquilo que brota no avesso.
Por isso Domingos se sai melhor quando se filia ao cinema direto, como em “Deixa na Régua”. É que ali são os próprios personagens que modulam o filme, performam livremente, criam o espaço fílmico e dão a tônica de tudo. Até mesmo a abordagem frenética, no calor do momento, de “A Batalha do Passinho” talvez pudesse ser aplicada de alguma forma, embora “Black Rio!” seja um filme bem mais maduro e melhor estruturado que o primeiro.
Seja como for, Domingos acerta no que tem que acertar, e o mais importante: seu filme toca bem alto na caixa de som.












