“Algumas pessoas dizem que somos doentes, loucas e outras acham que somos as coisas mais bonitas do mundo.” – Venus Xtravaganza (1965 – 1988)
Paris Is Burning (1990), de Jennie Livingston é uma das obras mais importantes dos anos 90 para a new queer cinema (novo cinema queer). Ambientado em Nova Iorque, o documentário segue drag queens, transgêneros, travestis, gays e lésbicas, que em sua maioria são latinos e negros, que participam de bailes, chamados também de “ball”, sendo esse o Paris is Burning. Dentro do baile, os participantes podem assumir quem são sem sofrerem retaliações da sociedade, vestindo e agindo como são e esbanjando “carões” e roupas glamourosas, além de fazerem performances conhecidas como “vogue”, inspiradas na revista Vogue, que imitam poses e jeitos das modelos das revistas.
O documentário escancara o grupo que em sua pluralidade, sofre com a desigualdade social, econômica e racial, que luta a cada dia para ter um espaço e se sentirem pertencentes à algum lugar, sendo os bailes um lugar de conforto e pertencimento. Essas ‘houses’ (casas) funcionam como famílias alternativas, os frequentadores dos bailes adotam os nomes das casas e as representam nos bailes. O objetivo dos participantes é terem o título de legendário, que é quando se ganha uma categoria no baile. As houses, como a Casa Labeija, em Paris is Burning (1990) não apenas funcionam como uma família de apoio, mas também subvertem as normas de gênero e sexualidade, uma característica central da teoria ‘new queer cinema’.
As casas possuem uma matriarca, alguém que está sempre ali para os participantes e cuida de todos, além de serem lendárias e terem um nome importante na trajetória nos bailes. Segundo Willi Ninja (1990), mãe da Casa Ninja e coreógrafo, “Em geral, a mãe se torna mãe porque é a melhor do grupo.”. Muitos jovens chegam nas casas depois de serem abandonados por sua família biológica e buscam acolhimento nas casas, que os recebem e os ajudam até onde podem, e criam-se laços que são tão poderosos quanto uma família de sangue.
Muitos jovens do documentário têm sonhos de serem famosos, possuírem condições melhores e serem modelos, atores e atrizes. Octavia Saint Laurent, da casa Saint Laurent, tinha o sonho de ser atriz de cinema e modelo, e felizmente conseguiu alguns papéis na indústria, mas com pouco reconhecimento. Muitas pessoas do movimento queer, apesar dos seus talentos e esforços, não recebem o devido reconhecimento por seu desempenho, geralmente trocados por pessoas cis e heterossexuais.
Com a multiplicidade de obras referenciais que possuíam representatividade LGBTQIAPN+, o movimento ‘new queer cinema’ foi sendo construído e as obras foram sendo reconhecidas e sendo aceitas pelo público que buscava representações reais nas telas de cinema.
A obra é reconhecida como ícone do movimento ‘new queer cinema‘ (novo cinema queer), que surgiu nos anos 80 para dar visibilidade às histórias e lutas da comunidade LGBTQIAPN+, a teoria que mostra que nos anos 80 o cinema queer cresceu devido a necessidade de existir uma representação nas telas de cinema de obras assumidamente queer, filmes com representações explícitas de atividades sexuais entre pessoas do mesmo gênero e forte subversão de ideais heterossexuais, dando espaço a questões sobre sexualidade e identidades humanas.
A visibilidade e reconhecimento nas telas dessas identidades são fundamentais e importantes para o movimento queer em geral, pois acolhe e cria uma audiência que pode se identificar, fortificar o movimento e expandir os ideais. Paris Is Burning (1990) também é importante por criar o enlace entre raça-sexo-gênero em uma mesma obra, buscando representar diversos lados de uma comunidade.
O movimento ‘New queer cinema’ foi importante também para difundir as informações sobre a AIDS, pois trazia informativos de forma mais aberta e um melhor acesso para a comunidade LGBTQIAPN+, combatendo a repetição de estigmas e preconceitos com a população queer. Os filmes, mesmo os mais escrachados, possuíam mensagens de luta social e reinvindicações de seus direitos.
O new queer cinema passou então a ser esta janela que dá visibilidade a esta encruzilhada de múltiplos componentes de subjetividades que são agenciadas tanto pelos modelos fixos de sexualidade, com seus processos de normatização e vigilância, como também pelo desejo do devir, das escolhas pessoais do corpo e da autorreferência de gênero. (Nepomuceno, 2009, p. 2)
Em conclusão, Paris is Burning (1990) não é apenas um documentário sobre a cultura dos bailes, mas uma obra fundamental na história do cinema queer, que coloca questões essenciais sobre identidade, raça e pertencimento no centro das telas de cinema. Ao trazer à tona vozes marginalizadas, o filme continua relevante na luta por visibilidade e direitos para a comunidade LGBTQIAPN+ no mundo todo.
“Há algo para todas.” – Pepper LaBeija (1948 – 2003)
Obra utilizada:
CORRÊA, Ademir. Cinema queerité: Gêneros e identidades no documentário “Paris is burning”. São Paulo: Paco Editorial, 2020. E-book.













