A questão a ser respondida com um filme como “O Silêncio das Ostras” é simples: seria este mais um exercício em miserabilismo cinematográfico sustentado por um suposto desejo de denúncia social? Um daqueles filmes embrenhados na miséria humana e no lixo e na podridão de tudo que há e coisa e tal?
A premissa abre espaços para suspeitas porque estamos aqui mergulhados no universo do predatorismo extrativista no interior de Minas Gerais. Mais especificamente, numa cidadezinha mineradora em um fim de mundo qualquer, onde as palavras são poucas e a lama é muita. Kaylane (Lavínia Castelari/Bárbara Colen) é nossa janela para esse mundo. Com os quatro irmãos, o pai aposentado por invalidez e a mãe que sonha em ser cantora, ela vai aprender desde cedo que tudo que é ruim pode piorar e que tem gente que deu o azar de nascer para sofrer.
Agora, você pode fazer um filme desses para esfregar a cara do espectador no barro humano, o que apenas revelaria um baita cinismo da parte dos realizadores, dispostos a reduzir seus personagens a meros joguetes de um tabuleiro sádico. Felizmente, o diretor Marcos Pimentel parece ser um sujeito sensível. Mais do que isso: a raiva é genuína, mesmo que isso acabe prejudicando a empreitada, ocasionalmente.
A Kaylane que ele aqui constrói com suas atrizes é uma personagem autêntica, um ser humano que ainda é capaz de encontrar formas para se expressar em meio à penúria geral. Ela coleciona insetos, decora o casebre com flores e adota cachorrinhos perdidos. Sua mãe, que deixará a família sem dar explicações ainda no início de “O Silêncio das Ostras”, é também uma personagem complexa. Ela claramente ama a filha, mas não consegue abrir mão do sonho diante do que vê como um beco sem saída.
Aliás, num momento de humor, ela irá entoar um trecho de “Pequena Eva”, o famoso hit de axé. Que a canção ainda se torne uma espécie de leitmotiv durante a projeção, suscitando uma emoção diferente a cada aparição, é prova de que Pimentel tem algo de original a mostrar.
Ajuda também que o diretor invista num quê mais contemplativo, com planos abertos das paisagens desoladas, das colinas arenosas, dos lagos lamacentos e mortos, das planícies marcianas do interior mineiro. Não surpreende ver o nome de Petrus Cariry nos créditos como diretor de fotografia, ele que ainda este ano lançou seu próprio longa, “Mais Pesado É o Céu”.
É interessante comparar os dois projetos porque há mesmo muito de comum entre os dois, não apenas nas composições pictóricas. Em ambos temos retratos de vidas secas, de pessoas vivendo em condições extremas, tentando andar na linha tênue entre o retrato compassivo e a exploração. Cariry o faz contrapondo o naturalismo a um certo maneirismo no modo de mover a câmera e os atores, por mais que acabe descambando mais do que o desejado para a velha trip “o homem é o lobo do homem” ao final. Já Pimentel parece ter um pezinho no melodrama (a presença do circo, o desfecho da situação com a mãe), o que me parece bem-vindo.
Este seria mesmo um grande filme se a sua raiva justificada não tomasse a melhor no último terço, lançando “O Silêncio das Ostras” em uma busca desesperada por uma imagem que seja mais forte que a anterior. É estranho porque o longa parece vagar a esmo (como Kaylane o faz, é verdade), sem perceber que já mostrou seu ponto muito bem, obrigado. O pepino sobra para Bárbara Colen, que é bastante demandada fisicamente e se sai muito bem, como era de se esperar.
No fim, “O Silêncio das Ostras” se perde em um certo didatismo óbvio que não só mina seu impacto, como parece até não conversar com o que veio antes. A sorte é que, até esse ponto, Pimentel já havia sido mais do que hábil em fazer sua raiva e tristeza sentidas.












