Tenho certo fascínio com a forma que diretoras e diretores percebem as cidades nos filmes que realizam. Com “Tudo que imaginamos como luz”, Payal Kapadia faz da impermanência o que conecta e também repele as pessoas em uma Mumbai que parece só brilhar com as luzes dos apartamentos. É lá o ponto de partida para uma história sobre a descoberta do amor e a resignação com a solidão, retratadas em três mulheres, Anu (Divya Prabha), Prabha (Kani Kusruti) e Parvaty (Chhaya Kadam).
Em uma narrativa que dialoga de forma curiosa com o brasileiro “Cidade; Campo”, elas também se veem obrigadas a sair de onde já se acostumaram a viver – seja isso bom ou ruim – e é nessa divisão entre Mumbai e aldeia que o filme se divide. Mas, se o trabalho mais recente de Juliana Rojas conta dois filmes em um ao mudar da cidade para o campo, o drama dirigido por Kapadia segue uma progressão natural de forma a complementar o que as personagens anseiam desde o primeiro momento que somos apresentados a elas.
Kapadia faz um exercício sobre as escolhas que somos forçadas a tomar. Uma das personagens parece não existir na cidade porque não tem um documento. Outra está mergulhada em marasmo naquele lugar e busca um momento a sós com o rapaz com quem está saindo. A terceira guarda o coração partido por entre os sons e movimentos do cotidiano.
Quando a narrativa muda de espaço, o tempo também parece ser outro. Como uma delas diz, “a cidade rouba o tempo de você”, afinal. Os ponteiros parecem se acertar e cada uma encontra resolução, ainda que imperfeita. Até o repetitivo piano da trilha dá lugar a um violão mais suave quando o amor de uma delas é, enfim, consumado.
É um filme que demora a ser digerido – pelo menos eu precisei assistir duas vezes para sentir toda a intensidade narrativa e as escolhas visuais que enriquecem a história. A confraternização da família que se escolhe é quase que um abraço no espectador que acompanhou as dores e anseios daquelas mulheres. Ainda que as resoluções sejam momentâneas para o trio, elas chegam iluminadas pelo conforto de quem acolhe.













