Em uma Paris carregada de artificialidade, Maria Callas anda ao som das trilhas que a acompanharam em palcos célebres. A um repórter, ela fala sobre a música como algo indissociável da própria existência, recorda o grande amor que teve com Aristóteles Onassis e reflete sobre os anos que lhe restam. De tudo isso, apenas Maria, a cidade e as memórias são reais. Encenar uma entrevista pelas ruas e restaurantes parisienses é apenas um novo ato do espetáculo que a estrela montou para si mesma. 

Essa dança entre realidade e ilusão comandam “Maria Callas”, uma espécie de novo capítulo do ciclo do diretor chileno Pablo Larraín sobre mulheres célebres do século 20. Se em “Jackie” ele examina a política dos Estados Unidos na figura de uma primeira-dama e em “Spencer” ele mergulha na mente de uma jovem princesa britânica, aqui, pela primeira vez, ele tem uma artista como foco. 

A natureza trágica da estrela já inspirou diversas obras no cinema, na TV e no teatro, com a dicotomia entre as personas Maria e La Callas vivida por atrizes que vão de Faye Dunaway à brasileira Christiane Torloni. É de fato um banquete dramático irresistível que Larraín une ao fascínio que a intérprete da vez, Angelina Jolie, também exerce sobre o público. O resultado é uma atuação que tem momentos mais fortes justamente em uma sutileza pouco explorada na filmografia da atriz, enquanto o peso melodramático que ela já carregou bem em títulos como “A Troca” e “Gia” parece enfraquecido talvez pela sombra da personagem que interpreta. 

Jolie é uma Maria Callas no fim da vida com toques de Norma Desmond nas desilusões e no apego ao que já não existe mais. A dinâmica entre protagonista e a figura da pessoa fiel escudeira já mostrada nas outras cinebiografias Hollywoodianas de Larraín se repete aqui, com um dinamismo marcado justamente na sutileza com que Jolie entrega a ironia nas interações sobretudo com Pierfrancesco Favino. O leque de “Maria Callas” ainda abrange Onassis e até um retorno aos Estados Unidos da Era Camelot, mas não da forma que todo mundo espera (o que, de certa forma, contribui para evidenciar tal figura como uma eterna sombra para Callas). 

Mais uma vez, Larraín lança mão de recursos oníricos para examinar figuras cujas vidas privadas foram dissecadas de todas as formas pelos tabloides por décadas. A desconstrução de mais um mito pode não ser tão complexa quanto as obras sobre Jackie Kennedy e a princesa Diana, mas há um quê de fantasmagórico que fecha essa trilogia não oficial com a reverência devida a uma mulher que deixou o mundo com um coração partido.