Lá se vão quase cinco décadas desde o primeiro Saturday Night Live. O programa revelou talentos, ganhou spin off no cinema e fez políticos entrarem na dança da comédia ao vivo. Mas, mais de 900 episódios atrás, quando ninguém sabia se um compilado de esquetes teria fôlego para manter o espectador em casa aos sábados, o talento não parecia garantia de nada. É justamente nessa incerteza que o diretor Jason Reitman mergulha no filme “Saturday Night – A Noite Que Mudou a Comédia”.
O Cine Set teve a oportunidade de conversar com o diretor sobre as inspirações de um filme que aposta no caos dos bastidores. A entrevista está na íntegra em vídeo no nosso canal do YouTube e você também pode ler a conversa abaixo.
Cine Set – Oi, Jason, estou muito feliz de conversar com você.
Jason Reitman – Sim, é um prazer.
Cine Set – Eu gostei muito do filme. Eu sei que você cresceu em sets de filmagem, então imagino que as histórias de bastidores são fascinantes. Você conhece Dan Aykroyd desde criança e trabalhou brevemente no Saturday Night Live… Como a ideia de fazer um filme sobre os bastidores do primeiro SNL surgiu?
Jason Reitman – Acho que você está no caminho certo. Eu cresci em sets de filmagens, sempre interessado no trabalho dos bastidores. Quando meu pai me levava aos sets, eu queria ficar com as equipes nos bastidores. Eu queria estar com os câmeras, eu queria ser da equipe. E, quando eu assistia o SNL, eu tinha mais curiosidade com os bastidores do que com os atores que estavam na frente das câmeras, (como) moviam os sets, as câmeras e conseguiam levar ao ar um truque de mágica em forma de programa de TV.
Cine Set – Esse é um elenco grande, e os atores recriam nomes que a gente conhece do cinema e do próprio SNL. Você precisa administrar várias histórias simultâneas dentro de espaços pequenos. A blocagem é impressionante. Como você trabalhou com esses desafios?
Jason Reitman – Eu nunca tinha trabalhado com um elenco tão grande. São 80 personagens com falas, todo mundo trabalhando quase todo dia. Isso tudo é parte do que queríamos criar. Nós queríamos criar um ambiente vivo e crível. Eu amo filmes que jogam o espectador em uma situação sem explicar, mas permitindo que a gente se mova ali e conheça cada personagem, tentar entender aquele ambiente, e é assim que uma pessoa se sente quando está em um set pela primeira vez. Foi como criar um balé do caos, muito coreografado. E a escolha do elenco foi na direção de atores que entenderiam a essência das pessoas que iriam interpretar. Pensar em atores que captariam a sensação daquelas pessoas nos minutos antes de o programa ir ao ar.
Cine Set – Falando no elenco, Gabriel LaBelle está muito bem como Lorne Michaels, mais uma vez interpretando uma figura icônica da vida real (em 2022, o ator interpretou Steven Spielberg em ‘Os Fabelmans’). O que te fez pensar nele para viver o personagem que está no centro da história?
Jason Reitman – Eu vi Gabriel ao lado de Steven Spielberg em uma sessão de “Os Fabelmans”. De alguma forma, aquele garoto de 21 anos estava seguro perto do maior diretor vivo. Tem algo em Gabriel, nos olhos dele, de um sonhador. Ele é um ator pronto para fazer tudo para alcançar os sonhos dele. Essa é a parte de Lorne Michaels que não dá pra ser fabricada. A gente queria alguém que tivesse essa aura de quem pode correr com 100 obstáculos, mas nenhum vai tirá-lo do caminho.
Cine Set – Você falou um pouco do processo de escolha do elenco. São 80 personagens, e tem atores ali que ficaram muito parecidos, como é o caso do ator que faz o Chevy Chase (Cory Michael Smith).
Jason Reitman – Ele é ótimo, não é? Uma das nossas regras é que os atores não precisavam ser comediantes. Cory Michael Smith é mais conhecido por atuar em dramas. E aí temos atores britânicos fazendo atores estadounidenses. Pra gente, o mais importante era que eles captassem a essência dos personagens. Entender que Chevy Chase tinha um ego que precisava ser domado, ou que Garrett Morris estava em busca da própria identidade ou que John Belushi tinha pavor do que a fama faria com ele, e ele se esconde.
Cine Set – Nicholas Braun interpreta Jim Henson e Andy Kaufman. Na sessão que eu fui, as pessoas ficaram surpresas de ver o “Primo Greg” com dois personagens. Como foi pra isso acontecer? Eu soube que foi algo de última hora…
Jason Reitman – É, originalmente, Benny Safdie ia interpretar Andy Kaufman, mas ele não pôde fazer o filme. A gente pensou que Nic Braun seria fantástico pro papel. Eventualmente, pensamos que no SNL atores fazem mais de um papel. Por que não usar isso no filme também?
Cine Set – Tem uma cena que amei no filme, que é o momento da conversa de Gilda Radner com John Belushi na pista de gelo. É muito agridoce, porque sabemos que eles não viveriam muito depois disso…
Jason Reitman – Nosso produtor, Peter Rice, apontou que esse é um filme sobre o começo de algo, mas duas das pessoas envolvidas morreriam pouco tempo depois. Eles não viveram pra ver toda a longevidade do programa. E há algo especial em colocar essa conversa entre os dois, principalmente uma conversa sobre sentir nostalgia no momento em que algo acontece. É algo com o que me identifico. Viver um momento e perceber, enquanto esse momento acontece, que você vai olhar pra trás. Um dos motivos pelo qual fizemos o filme foi a nossa curiosidade em saber se as pessoas sabem quando criam algo que vai mudar o mundo. Momentos antes do SNL ir ao ar pela primeira vez, você sente que é só mais um sábado à noite ou que é uma das noites mas importantes da história? Se você estivesse no set de “Tubarão”, você saberia o que o filme iria se tornar ou acharia que seria um filme qualquer sobre tubarão? Se você pudesse sentar ao lado de um Beethoven compondo Für Elise, você saberia que algo importante estava acontecendo? Ou seria só um cara tocando piano? Eu sempre tive curiosidade sobre aquele momento no prédio da NBC, se as pessoas já sentiam nostalgia do que estava acontecendo ou se estavam apenas preparando mais um programa de TV.
Cine Set – Você teve acesso ao prédio da NBC? Como foi o processo de pesquisa?
Jason Reitman – Lorne Michaels foi muito generoso, nos deixou entrar e transitar pelo 30 Rock. Estivemos lá e acompanhamos os programas. Eu participei do SNL anos atrás como roteirista convidado. Eu tinha essa experiência de saber como era (viver os bastidores do SNL). Uma das coisas legais daquele prédio é que pouca coisa mudou ali. Os camarins, os lugares onde as equipes colocavam as coisas, os escritórios… Nada mudou. Ao andar ali, você sente uma conexão com a história.
Cine Set – Falando sobre conexão com a história, qual a sua temporada favorita do SNL?
Jason Reitman – Acho que essa é uma resposta que identifica imediatamente as idades das pessoas, porque respondem a temporada que estava no ar quando elas tinham 16 anos. Eu amo o SNL dos anos 1990. Adam Sandler, Will Ferrell e toda aquela turma. Acho que eles são parte da definição e da formação de como eu penso a comédia.
Cine Set – Para encerrar, você teve algum retorno do elenco original, das pessoas que ainda estão vivas?
Jason Reitman – Sim! Essa é uma das partes mais especiais dessa experiência. Ter o retorno de Dan Aykroyd, Garrett Morris, Laraine Newman, Billy Crystal… Ouvi-los falando sobre como foi diferente, mas reconfortante ver o filme e revisitar uma das noites mais importante das respectivas carreiras deles.














