Após o elogiado “Prisioneiros da Aparência” (2018), Aaron Schimberg retorna desta vez com “Um Homem Diferente”. O filme mistura elementos de thriller psicológico, comédia, sátira e ação. Não muito distante dos temas abordados em seu filme anterior, Schimberg se apropria novamente de um universo metafórico para alocar os personagens. Desta vez, usa a metalinguagem como recurso narrativo através de uma peça de teatro de baixo orçamento para ambientar e criar vida a todos os seus sujeitos de maneira inteligente e sagaz.

O filme conta a história de Edward (Sebastian Stan), um aspirante a ator que possui neurofibromatose, uma mutação genética que causa deficiência facial com tumores e aspecto de inchaços. Logo no primeiro ato, já percebemos a rotina de Edward e como ele é visto pela sociedade de forma preconceituosa: as pessoas o observam de maneira estranha, o vizinho faz perguntas inconvenientes e Edward grava um comercial organizacional de conscientização sobre deficientes da forma mais estereotipada possível.

Tudo isso muda da noite para o dia quando o protagonista decide se submeter a um tratamento experimental de uma clínica de cirurgia plástica, que se propõe a reconstruir o rosto das pessoas com essa condição e remover as características da neurofibromatose, trazendo-lhe o rosto original. Isso ocorre porque Edward não nasceu com a patologia; ela se desenvolveu durante seu crescimento. A partir da sua mudança, Edward omite sua identidade e passa a se autodenominar como Guy.

“Um Homem Diferente” traz um roteiro nitidamente inteligente e seguro, com a peça de teatro sendo usada como artifício metalinguístico de forma muito perspicaz. Os diálogos, envolvendo o rumo da trama da peça baseada na vida de Edward, mostram todos ali querendo decidir o destino, os sentimentos e a vida do personagem centro da trama, enquanto Edward/Guy está ali, como espectador de sua própria história lutando para poder interpretá-lo. A insanidade do personagem começa a aflorar gradualmente dentro dele, especialmente após o impacto de conhecer Oswald (Aaron Pierson), um homem que tem a mesma doença que Edward/Guy tinha, mas que leva uma vida totalmente oposta a como era a sua. Oswald é confiante, musicalmente talentoso e extremamente carismático, o que acaba provocando uma dor em Guy/Edward, pois ele começa a refletir se viveu a vida de forma errada e vitimista.

A jornada de autoconhecimento o faz refletir sobre toda a existência. A partir do momento que Guy/Edward teve o rosto de volta através da cirurgia, tudo se altera, mas seu interior permanece o mesmo. As inseguranças ainda existem e, é nesse ponto, que conseguimos perceber a potência da atuação de Sebastian Stan. A vida que o protagonista sempre sonhou vai se rompendo aos poucos quando é confrontado pela presença de Oswald. Guy/Edward se obriga a refletir sobre a vida e não consegue lidar com isso. A angústia se transforma em raiva até atingir o ápice. As expressões refletem o estranhamento que sente diante das coisas que acontecem ao seu redor após essa nova realidade. Stan, consegue transmitir com maestria nuances de desconforto, constrangimento e autodepreciação. Enquanto todos estão felizes com o desenvolvimento da peça, por intervenção de novos pontos de vista de Oswald. Guy/Edward precisa se conter para não revelar a todos ali que, na verdade, a diretora e o elenco estão “modulando” sua própria vida ou como ela deveria ter sido.

A direção de Schimberg é um bônus à parte: a câmera gira muitas vezes em torno de Edward/Guy, aproximando-nos de suas emoções. Em alguns planos, o tom documental torna o personagem mais vivo e palpável. Adam Pearson é um ótimo coadjuvante que praticamente “rouba a cena” literalmente, com seu personagem caindo de paraquedas na trama sem grandes explicações, mas conquistando todo mundo com sua personalidade eloquente e simpática. Acredito que essa foi a intenção do diretor: jogar esse personagem de forma totalmente arbitrária na vida de todos, como se ele fosse muito “perfeito” para essa realidade e contrastar com o protagonista.

O filme quebra nossas expectativas e nos convida a analisar certas questões: quais perspectivas temos em relação às pessoas com deficiência? Como nos enxergamos em relação a elas? Somos, por vezes, capacitistas sem perceber, ao termos certas opiniões sobre esse grupo de pessoas? Essas são perguntas totalmente válidas e necessárias para refletirmos como sociedade.

“Um Homem Diferente” é uma das belas surpresas do ano. Um longa com muitas camadas e o tipo de obra para se assistir mais de uma vez, (eu mesmo já assisti duas vezes) pois a cada visita, ele nos faz refletir ainda mais sobre as problemáticas que circundam as vidas de deficientes físicos e questões como identidade e autodescoberta. É um filme que tem cuidado e originalidade em debater temas sérios e universais e que, provavelmente, vai envelhecer bem, tornando-se cada vez mais relevante, independente do momento em que vivemos. Uma película atemporal.