Carro-chefe da economia brasileira, com faturamentos de bilhões na exportação, o agro ganhou a dimensão de popstar nos últimos anos. A dinheirama do setor ultrapassou a eleição de bancadas pesadas no Congresso Nacional e até chegou a sonhar com a Presidência da República. Empresários e fazendeiros compreenderam a importância do meio artístico para influenciar ainda mais a sociedade do ponto de vista cultural e de costumes. Com investimentos de milhões e estruturas dignas de estrelas internacionais, o Brasil viu o sertanejo dominar todos os ritmos, criar festivais gigantescos como o Villa Mix e gerar as principais estrelas da música pop da atualidade, com nomes como Luan Santana, Maiara e Maraisa, Ana Castela, Simone Mendes, Gusttavo Lima e Marília Mendonça. Para o bem e para o mal, o agro, de fato, se tornou pop.

A dimensão grandiosa ostentada pelo agro, entretanto, parece ignorar o lado rural mais humilde e singelo do país, das pessoas comuns e da simplicidade de se levar a vida em comparação com as complexidades de uma metrópole. Com leveza e uma dose de nostalgia, “Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa” resgata um pouco desse Brasil com ternura e muita inteligência, em uma história tão bem contada que deixa um sorriso de orelha a orelha do início ao fim.

A esperteza do personagem criado por Maurício de Souza consegue ser transportada muito bem para a adaptação dos cinemas, no roteiro do também diretor Fernando Fraiha, ao lado de Elena Altheman e Raul Chequer. As sacadas rápidas de Chico Bento para se livrar dos apertos – ao ser perguntado pela mãe onde estava a rapadura, ele responde sem pestanejar “estava ali mais cedo, agora, não está mais lá” e vai embora com o doce no bolso – o jeito intrépido de conseguir o que deseja e o jeitinho de falar com aquela prosa mineira, repleta de neologismos ou achados simples que dizem tanto, tornam o protagonista cativante de cara.

Grande parte disso, claro, acontece por conta de Isaac Amendoim. Com quatro milhões de seguidores no Instagram, o menino de 11 anos poderia estar ali apenas por ser um influencer conhecido do público-alvo. Ledo engano: o carisma dele transborda e, quando ele abre a porteira na inventiva saída de informar o nome do filme, você já está conquistado. Além dele, o elenco infantil como um todo está ótimo em sintonia com Isaac, especialmente Pedro Dantas como Zé Lelé.

Os fãs das HQs, aliás, não podem reclamar: para além da fidelidade ao espírito do personagem, “Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa” consegue ser de uma beleza apaixonante, com os figurinos, a direção de arte e a maquiagem e penteado das figuras conhecidas dos gibis tão bem traduzidos para a live-action. E ainda tem aquela participação na reta final para dar um quentinho no coração – Stan Lee, definitivamente, fez escola.

Voltando ao ponto inicial da crítica, chama a atenção como o filme se contrapõe ao próprio discurso de uma parte significativa do agro, de um crescimento a qualquer custo, degradando a natureza. A luta do protagonista e seus amigos contra o progresso que atropela tudo e todos aparece longe de um discurso didático e forçado, mas, sim, repleta de memória gerada pela integração com o meio ambiente vinda do berço. Com isso, “Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa” remete à pureza de Mazzaropi, com uma inteligência e sofisticação surgidas da simplicidade. Que o Brasil recorde mais dessa virtude tão característica nossa.