No “Mundo Perdido” dos remakes, spin-offs, reboots e continuações que parecem não ter fim – o universo de Star Wars, por exemplo –, vez ou outra nos deparamos com gratas surpresas. É o caso da série Dexter: Original Sin. Não seria precipitado dizer que, para que um novo investimento dê certo, ele deve, sim, respeitar a sua série base e manter alguns ingredientes que a tornaram famosa. Encerrada em 2013, na sua oitava temporada – e com um final bastante controverso –, Dexter deixou aquele gosto de que merecia mais (até porque temos uma imagem dele vivo ao final).

Infelizmente, não foi o que aconteceu com Dexter: New Blood, de 2021. Esta continuação, mais uma vez, dividiu opiniões.

Quanto ao pecado original, o que faz com que o jovem estudante de medicina se torne um assassino serial vem, em primeiro lugar, de uma ótima escolha de elenco. Começando pelo ator principal, que interpreta Dexter mais jovem, o irlandês Patrick Gibson dá um show desde sua primeira aparição. É assustador o tanto que Gibson se parece com o personagem de Michael C. Hall. Os trejeitos são idênticos, a atuação convence e nos faz nos envolver com sua história e os indispensáveis comentários ácidos. Este último, além de ser produtor executivo da série, também é quem narra, como na série principal.

Outras excelentes escolhas foram o resgate de Christian Slater como Harry, o pai adotivo de Dexter, que ensina o famoso “código” para o filho eliminar os criminosos: não matar inocentes e nunca ser pego. O veterano Patrick Dempsey está bem como o capitão de polícia Aaron, e ainda temos uma participação de Sarah Michelle Gellar como a inspetora geral Tanya. É saudosista ver os companheiros de Dexter mais jovens, como Angel, LaGuerta e Masuka. Nosso único ponto desfavorável é o excesso de foco dado à insuportável Deb Morgan, irmã de criação de Dexter. Ela tem muito tempo em cena com seus chatos dilemas de jovem adulta, que, em nossa opinião, não contribuem em nada para o amadurecimento/desenvolvimento da personagem.

Para fãs de psicopatologia, como os autores deste texto, é bem interessante ver o que se passa com Laura Moser, mãe biológica de Dexter, para que possamos entender as razões pelas quais ele viria a se tornar um assassino serial.

Há um conceito na psicologia humanista do norte-americano Carl Rogers que nos parece muito importante: o de pessoas-critério. Pessoas-critério são aquelas pelas quais o sujeito gostaria de ter uma aceitação. Ao longo da vida, os sujeitos elegem várias pessoas-critério que exercem grande influência sobre eles. Elas podem ser familiares, amigos ou até mesmo ídolos. Segundo Holanda (1998), o processo de escolha de pessoas importantes na vida de um sujeito inicia-se com a questão da necessidade de consideração do organismo. Essa necessidade é tão forte que a pessoa forja suas próprias experiências em troca de amor e reconhecimento.

Sem dúvida alguma, para nós, Harry foi e continuava sendo, mesmo depois de morto, uma pessoa-critério para Dexter. Essa “eleição”, feita inevitavelmente, tem seus lados prós e contras.

Segundo Rudio (2003), quando o indivíduo entende que esse procedimento de negar ou distorcer suas experiências para receber aceitação do outro foi eficaz, ele adota-o como modelo de vida. Pode-se dizer que essa pessoa deslocou seu centro de avaliação de seu referencial interno para o externo, de modo que passará a decidir o que é melhor para ela, não com suas próprias percepções, mas com percepções externas a ela. Em ambientes de existência muito condicionais, pode ocorrer, como consequência, a perda de uma parte de sua experiência vivida e do controle de seu comportamento. A partir disso, torna-se necessária a morte simbólica desta pessoa-critério para que se possa viver uma vida mais autêntica e menos dependente.

Só esperamos que, com a previsão de Dexter: Resurrection para meados de 2025, o personagem tenha um final digno de uma série que ocupou tanto o imaginário dos fãs sobre os limites de uma patologia como a dele. Terminamos nosso texto com um ponto interessante: se Dexter tivesse tido um acompanhamento psicológico intenso desde criança, ao invés do “Código de Harry”, ele teria se tornado um serial killer? Nunca iremos saber… ou, quem sabe, poderemos esboçar possibilidades aos olhos da psicologia em um próximo texto?

REFERÊNCIAS

Holanda, A. F. (1998). Diálogo e psicoterapia: Correlações entre Carl Rogers e Martin Buber. São Paulo: Lemos-Editorial.
Rudio, F. V. (2003). Orientação não-diretiva: na educação, no aconselhamento e na psicoterapia. 14ª ed. Petrópolis: Vozes.