Como a maioria dos filmes do diretor Steven Soderbergh, Código Preto é bem atuado, divertido, charmoso e, ao mesmo tempo, esquecível. Aqui, o cineasta por trás de Sexo, Mentiras e Videotape (1989), Irresistível Paixão (1998) e Erin Brockovich (2000) volta a se juntar ao roteirista David Koepp – eles trabalharam juntos no suspense Kimi: Alguém Está Escutando (2022) – para criar uma história que combina espionagem com crise conjugal, uma mistura de gêneros muito ao gosto de Soderbergh, cinéfilo. Em alguns momentos, é quase como um cruzamento entre Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966) e James Bond.

Na trama, temos o casal George e Kathryn, interpretados por Michael Fassbender e Cate Blanchett. Eles trabalham em um centro de cibersegurança da espionagem britânica. Uma noite, George recebe a informação de que uma das pessoas em seu círculo próximo é um traidor, responsável pela venda de um malware perigoso para forças estrangeiras. Analítico como só ele, George começa a investigar, chama seus colegas para um jantar regado a soro da verdade e começa a desconfiar da própria esposa. Justo eles, que possuem um casamento perfeito aos olhos de todos.

Se a honestidade completa já é difícil dentro de um relacionamento, imagine quando ambos os cônjuges trabalham no mundo da espionagem, onde a mentira e a desinformação fazem parte do cotidiano. É essa tensão que o roteiro de Koepp e a direção de Soderbergh capturam tão bem: mesmo que, em alguns momentos, o jargão técnico ou as reviravoltas tirem o chão do espectador, o interesse no relacionamento entre George e Kathryn se mantém e sustenta a narrativa.

O elenco é afiadíssimo e está em sincronia total, o que ajuda muito: entre os suspeitos, Tom Burke faz um sujeito infiel e suspeito; Marisa Abela é a esposa dele, analista de dados; Regé-Jean Page, de Bridgerton, é o agente jovem e ambicioso; e Naomie Harris interpreta uma psicóloga que tenta analisar essa turma. Harris participou dos três últimos filmes de James Bond como Miss Moneypenny, e Soderbergh traz o ex-007 Pierce Brosnan para viver o chefão do departamento – um “M”? Essas escalações autoconscientes fazem parte da brincadeira cinematográfica.

E claro, o show pertence a Blanchett e Fassbender: com aquelas maçãs do rosto, ela nasceu para fazer personagens misteriosas e enigmáticas. E ele exibe mais uma ótima atuação aqui, como um cara frio e cerebral, especialista em desconfiar e pegar os outros na mentira. As interações entre eles são ora engraçadas, ora cheias de subterfúgios, e também sensuais.

Código Preto é um filme leve – dura 1h30 – e no qual se sente o clima autoral e despojado do diretor: é direto ao ponto e não tenta ser mais do que é, um bom divertimento que some da mente após cumprir sua função. O próprio Soderbergh faz a fotografia e ilumina a cena do jantar com luzes quentes amarelas na mesa, criando um clima infernal entre os convidados dúbios; e a trilha ora retrô, ora moderna, do colaborador habitual David Holmes, ajuda a fazer deste um filme charmoso.

Apesar da leveza, o clímax fica na memória e parece apontar para um tema bastante atual, que o filme deseja explorar: no mundo em que vivemos hoje, às vezes dá realmente vontade de apontar uma arma para alguém e exigir que essa pessoa fale a verdade, ao menos uma vez. Queremos também saber a verdade sobre o casal George e Kathryn, e por isso Código Preto mantém nossa atenção. É um filme sobre casamento disfarçado de suspense de espionagem, ou um thriller sobre a busca pela verdade, esse artigo tão questionado hoje em dia, dentro e fora das relações humanas? No fim das contas, isso não importa tanto; pode ser ambas as coisas e também uma peça de cinema, e esse parece ser o maior interesse do seu realizador.

Autor

  • Ivanildo Pereira

    Jornalista, professor de cinema em cursos pelo Cine Set e crítico associado à Abraccine. Começou a escrever sobre cinema após fazer o curso Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica, do crítico Pablo Villaça. Literatura, música e cinema são seus maiores interesses.

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