O bom de assistir a um filme sem nenhuma informação prévia tem suas vantagens. Ou a produção surpreende positivamente ou é um desastre total. Porém, há aqueles que ficam no meio do caminho. Não é excelente, mas também está longe de ser uma grande catástrofe. O pequeno, singelo, silencioso e muito bom na sua primeira hora, Pequenas Coisas Como Estas, ao meu ver, fica nesse limbo.
Confesso que gosto de como Tim Mielants executa o filme de uma maneira muito sintética. Entretanto, o roteiro assinado por Enda Walsh, baseado no livro homônimo de Claire Keegan, peca pela quantidade exacerbada de sutileza que, para quem não estava familiarizado com o teor da narrativa, só é compreendido quando o filme termina com aquelas típicas legendas de produções baseadas em casos reais.
Basicamente, há duas histórias em uma que se completam no final: Bill Furlong (Cillian Murphy) é um pacato cidadão que mora na pequena cidade de New Ross, no interior da Irlanda. Carvoeiro, leva uma vida tranquila com a esposa Eileen (Eileen Walsh) e as cinco filhas. Homem discreto e de poucas palavras, ele presencia uma cena um tanto peculiar quando faz uma entrega no convento local: uma menina desesperada, pedindo que a mãe não a deixe lá. A partir disso, as lembranças de infância começam (ou voltam?) a lhe assombrar, ficando cada vez mais introspectivo, com crises de ansiedade e perdido em pensamentos. Paralelamente a isso, ele presencia cenas perturbadoras neste convento, despertando nele um sentimento de impotência e necessidade de ajudar pelo menos uma garota em específico (Zara Devlin), mesmo que sua esposa, uma amiga e a Madre Superiora (Emily Watson) deixem claro, nas sutilezas, que mexer nesse vespeiro não seria bom para ele e sua família.
Não esperem um filme de grandes rompantes. Como o título entrega, é tudo muito sutil, lento, melancólico, gélido, com uma fotografia escura e enquadramentos que compõem uma complexidade à trama sob o olhar azul e perdido de Murphy.
Pequenas Coisas Como Estas é dele; sem ele, não seria possível. É um trabalho minucioso, pesado, sujo, ofegante e com uma carga depressiva muito forte que Cillian carrega com maestria em seu primeiro filme após vencer o Oscar de Melhor Ator no ano passado. Emily Watson, que venceu o Urso de Prata de Melhor Performance Coadjuvante no Festival de Berlim em 2024, está discretamente maléfica, brilhando como a Madre, e toda a sua violência simbólica, quase imperceptível, é uma pena aparecer tão pouco.
Entretanto, esse olhar sobre o Outro e os dilemas éticos e morais que circundam a vida do protagonista soam heterogêneos. Explica-se: Pequenas Coisas Como Estas usa como pano de fundo a história de um homem destruído que resolve ajudar uma das meninas da famosa Lavanderia de Madalena, que, em síntese, eram deixadas por seus familiares por engravidarem jovens de homens casados ou não, para terem seus bebês e serem separadas após o nascimento, sendo escravizadas e humilhadas pelas freiras.
Um grande elefante branco muito comum na Europa desde o início do século passado até os fins dos anos 1990, todos sabiam, mas ninguém queria se intrometer pelo poder que a Igreja e as freiras tinham socialmente. Como em certa cena, Eileen fala: “Você quer viver nesta vida? Há coisas que precisa ignorar”. E como ignorar uma situação degradante como essa? O peso da culpa de um passado que poderia ser bem diferente e um presente de uma menina indefesa, como suas filhas, recaem nos ombros de Bill.
O final em aberto me incomodou bastante nesse sentido, em que eles (e é “eles”, no sentido masculino mesmo, com tantos homens na produção, incluindo Matt Damon e Ben Affleck) queriam contar. Uma homenagem que soou, assim como o filme, despercebida, quase como uma nota de rodapé.













