Ao ver as chamadas de G20 no catálogo do Prime Video, fiquei curiosa por se tratar de um filme de ação protagonizado por Viola Davis, motivada pela memória de A Mulher Rei, suas discussões e a atuação da atriz vencedora do EGOT. Diante disso, é uma pena constatar o quanto o filme dirigido por Patricia Riggen está fora de tom, datado e chega num momento político equivocado. Imagine só, em pleno 2025, lançar um filme em que o presidente dos Estados Unidos é um herói pronto a salvar o mundo?! Essa é a linha central de G20.
A narrativa se passa na África do Sul, onde os líderes das principais economias do mundo estão reunidos e são surpreendidos por um sequestro que envolve, entre outras coisas, questões relacionadas à geopolítica e economia contemporânea. A forma como o roteiro conta essa história é permeada de clichês e situações já vistas anteriormente em filmes do subgênero “presidente norte-americano salva o dia”. A pequena diferença recai na mudança de gênero e de raça desse personagem, o que, infelizmente, não acrescenta profundidade à trama.
Em termos de raça, não há discussões profundas. Tudo se resume a colocações sobre a cor da roupa que acentua seu tom de pele e o quanto ela é cercada de minorias étnicas como negros e latinos. Quanto ao debate sobre gênero, é peculiar que quatro das seis mãos envolvidas no roteiro sejam femininas e G20 abrace o argumento de que as mulheres em posição de poder ocupam os mesmos comportamentos que homens. Ann Kaplan falava disso em A Mulher e o Cinema — ao afirmar que, para muitos, as mulheres, quando em posição de liderança, assumem o papel/olhar dominante masculino —, mas em tempos de avanços feministas, era de se esperar que uma equipe liderada por mulheres adotasse uma posição mais crítica a esse paradigma. Ou talvez este fosse apenas um anseio meu diante de filmes dirigidos por mulheres.
Nesse sentido, Viola Davis, sendo o grande nome da trama, não tem todo seu potencial explorado. Muito se deve à forma como a narrativa se apresenta, mas também à construção de sua personagem, que a torna vítima de estereótipos femininos e masculinos. Danielle Sutton (Davis), ocupando o cargo mais importante do mundo geopoliticamente, sofre pressão por ser mulher. Seu plano para salvar a economia mundial não faz sentido, e ela não consegue o apoio de ninguém, ainda que queira se juntar às líderes mulheres do G20, por achá-las mais manipuláveis. Em relação à sua dinâmica familiar, tem um marido passivo e compreensivo e conflito com os filhos porque não pode dar a atenção que necessitam.
Ou seja, a protagonista se encaixa no tropo da mulher que precisa escolher entre a carreira e ser mãe, sem poder desfrutar plenamente desses dois âmbitos de sua vida. Paralelo a isso, e para confirmar a teoria de Kaplan, sua relação com o esposo acontece dentro de uma inversão de papéis. Ele assume a postura de cuidador dos filhos e zeloso pela função que a companheira ocupa, uma modificação literal do que se via em filmes do subgênero nos anos 90 e 2000.
É difícil não comparar G20 a produções como Força Aérea Um e Duro de Matar. Muitas escolhas aqui parecem oriundas de longas de ação estrelados por Steven Seagal, Stallone, Harrison Ford e tantos outros astros que estavam em nossas TVs no Supercine e Corujão nos anos 2000. Infelizmente, Antony Starr como chefe dos terroristas não está tão amedrontador assim; talvez seja a verve de Capitão Pátria que parece ecoar nessa atuação. Parte disso se deve também ao viés ultraexpositivo dos diálogos, à falta de cenas de ação marcantes e à ausência de coragem para eliminar personagens que acrescentariam dramaticidade à trama. Sinto dizer, mas a permanência deles não faz diferença narrativa.
A mesma coragem que falta para eliminá-los também se faz presente na superficialidade com que os temas atuais são debatidos, seja a questão das criptomoedas no início de G20 — a qual parece meio solta no decorrer do filme —, seja o deepfake e a subestimação do público acerca das situações solicitadas pelos terroristas. Tais escolhas afetam o próprio título dado à trama, uma vez que a questão geopolítica é praticamente inexistente, a tomada terrorista é mal construída tanto enquanto argumento quanto visualmente, o plano econômico é claramente uma furada, e o uso da África do Sul como cenário é mal aproveitado — a anfitriã é ignorada, a história poderia se passar em qualquer lugar do mundo, porque o que importa é o imperialismo norte-americano e como os Estados Unidos ocupam constantemente a posição de salvador da pátria.
Diante disso, fica evidente, para mim, o quanto G20 é uma produção datada e fora de tom; é só acompanhar os jornais ou o Twitter e fica bem evidente o porquê.













