Criada, escrita e dirigida por Bruno Stagnaro, O Eternauta é um exemplo raro de como se constrói um universo. Não falo apenas de geografia ou ambientação, mas de um espaço que respira, gela e silencia junto com seus personagens. Baseada na clássica HQ argentina, a série nos leva a uma Buenos Aires coberta por uma neve mortal — uma catástrofe natural ou talvez algo maior — que isola, paralisa e revela. Em meio ao branco que domina tudo, o medo, o vazio e a resistência aparecem em detalhes.
Mesmo com a repetição visual e a paleta quase monocromática, é impressionante como entendemos a lógica dos espaços. Sabemos onde os personagens estão, para onde vão, por que vão. Há uma construção sólida por trás da aparente imobilidade. Bruno Stagnaro leva o tempo que precisa, mesmo correndo o risco de cadenciar demais a narrativa, para fazer com que cada deslocamento, cada gesto simples, ganhe sentido. Isso só funciona porque o roteiro confia no espectador e na força do que está sendo contado.
Ricardo Darín, como Juan Salvo, carrega a solitude da série no olhar. Seu personagem parece sempre à beira do colapso, mas também da lucidez. E, ao redor dele, pequenos gestos, improvisações e dispositivos simples mantêm todos vivos. A série tem esse cuidado de valorizar o que é mínimo, o que é humano. A sobrevivência não está em grandes atos, mas em conexões sutis que revelam quem somos.
O mais interessante é como a série flerta com a ficção científica. Está tudo ali, mas de forma discreta. A fantasia surge aos poucos, quase como um sussurro — primeiro nas criaturas, depois em algumas pistas e, mais fortemente, no final da temporada. É só um vislumbre, mas o suficiente para deixar claro que há um mundo maior por trás da catástrofe. E isso só funciona porque a série dedicou tempo para preparar o terreno.
Outro ponto que chama atenção é a escolha dos protagonistas. Acompanhamos majoritariamente homens — e homens mais velhos — lidando com esse mundo novo. Mas não há idealização. Eles não estão ali por serem fortes ou heroicos; estão ali por acaso. São pessoas tentando sobreviver. O Eternauta não transforma isso em discurso, apenas mostra. E isso, hoje, já diz muito.
Mesmo sem ter lido a HQ original, é possível perceber como essa história está ligada a algo profundo na cultura argentina: a relação com a ditadura, com os desaparecidos, com a resistência silenciosa. A série carrega esse peso com respeito, sem didatismo, e encontra aí uma força simbólica que atravessa o tempo.
É impossível não lembrar de The Last of Us, principalmente da primeira temporada. Lá, tudo parecia correr para chegar ao ápice: planos copiados do jogo, emoções embaladas como produto. Só agora, na segunda temporada, a série parece começar a caminhar com as próprias pernas. O Eternauta, por outro lado, já nasce com identidade. Tem ritmo próprio, tem universo próprio. E, mesmo quando soa lenta demais, é porque confia no que tem a dizer.
No final, quando surge a possibilidade de Juan ser um viajante do tempo, a série enfim abre as portas para algo maior. Não como espetáculo, mas como continuidade. Agora que o universo foi estabelecido, que sabemos onde eles estão, o que passaram, o que perderam — é hora de descobrir para onde podem ir. E se há algo por trás do silêncio, da neve e do medo, O Eternauta promete que vai nos mostrar. Com calma. Mas vai.















