“Isso é muito Black Mirror!” — é o que provavelmente você vai pensar ao assistir A Avaliação. A diretora Fleur Fortuné nos transporta para um futuro cuidadosamente regulamentado, onde a capacidade de gerar uma nova vida não é mais um direito natural, mas um privilégio concedido pelo Estado. Em um mundo marcado por colapsos ambientais e escassez, o controle da natalidade se transforma em um mecanismo político e ideológico, evocando inevitáveis comparações com obras como The Handmaid’s Tale. No entanto, ao contrário da distopia gileadiana de Margaret Atwood, onde o corpo feminino é objetificado de forma explícita, A Avaliação opta por uma abordagem mais sutil, porém igualmente opressiva: aqui, o controle é frio, clínico e aparentemente racional — o que o torna ainda mais aterrador.

Fortuné, estreando na direção de um longa-metragem, consegue, com impressionante destreza, inserir o espectador nesse universo utópico e, ao mesmo tempo, opressivo. Sua direção é cuidadosa, mas não fria; alterna entre câmeras fixas, que reforçam a estagnação e o controle daquele ambiente, e movimentos dinâmicos que nos permitem acompanhar os personagens de forma quase íntima — como se estivéssemos sendo arrastados com eles nesse labirinto de avaliações emocionais e morais. É um recurso narrativo sutil, mas eficaz, que torna o espectador não apenas um observador, mas quase um participante da avaliação.

Essa atmosfera visual só é possível graças ao trabalho impecável do diretor de fotografia Magnus Nordenhof Jønck, que entrega uma composição estética milimetricamente equilibrada. A paleta de cores aposta no retrovintage, uma escolha que evoca tanto a nostalgia quanto o desconforto, contrastando objetos minimalistas e figurinos cuidadosamente planejados — com cores higienizadas de emoções. O design de produção, assinado por Jan Houllevigue, merece igual destaque: os espaços são frios, funcionais e levemente despersonalizados, refletindo a ideologia de um mundo onde o indivíduo se dilui na coletividade. Cada cenário e objeto parece falar sobre o silêncio emocional que impera naquele universo.

As atuações acompanham o tom sofisticado da direção. Alicia Vikander, interpretando a avaliadora Virgínia, oferece uma performance silenciosamente impressionante. Há algo quase robótico em sua figura — um traço que inevitavelmente remete ao seu papel em Ex Machina — mas a atriz evita o estereótipo da agente insensível. Pelo contrário, sua frieza é meticulosamente construída, e os breves momentos de empatia que emergem de sua postura glacial são tão inesperados quanto pungentes. Ela é, paradoxalmente, uma personagem que nos repele e atrai — uma figura que impõe julgamentos com calma quase maternal, mesmo quando seus métodos beiram o absurdo.

Elizabeth Olsen, por sua vez, interpreta Mia, a futura mãe que se vê forçada a justificar sua capacidade de amar. Olsen atinge bons níveis de profundidade dramática, revelando camadas de fragilidade, resistência e confusão diante de um sistema que transforma a maternidade em um teste psicológico. Ainda assim, há momentos em que sua entrega parece um pouco marcada, ensaiada, como se certos gestos e falas não fluíssem com naturalidade. Isso se torna mais evidente em cenas de confronto direto com Vikander, cuja atuação é mais contida, mas também mais orgânica. Contudo, é admirável ver Olsen alçando novos voos e se permitindo escolher novos projetos depois de anos limitada por um contrato de exclusividade com a Marvel.

No conjunto, A Avaliação se destaca não apenas pela relevância do tema — extremamente pertinente em um mundo que debate direitos reprodutivos, crise climática e vigilância estatal — mas também pela maneira como prende a atenção do espectador do início ao fim. Ao invés de grandes discursos, o filme aposta no desconforto silencioso, nos choques visuais e no estranhamento sutil. E isso é o que torna tudo mais perturbador: é um retrato de um futuro que, em muitos aspectos, já parece presente.

Autor

  • Formado em administração, mas com paixão pelo audiovisual, música e literatura. Caça filmes coming-of-age, scifi e suspense. Apaixonado por animações, principalmente em stop motion. Busco me qualificar e buscar cada vez mais minha identidade artística, tentando sempre aprender mais sobre os mais variados campos da arte. Támbém com a missão de ser um bom tecladista/pianista quanto Sebastian foi em "La La Land"

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