“Qual é o seu nome de batismo?”.
Esta é a fala de abertura do documentário “Alma do Deserto” (2025) da diretora Mónica Tapia, que documenta a vida de Georgina Epiayú – mulher trans de 70 anos, pertencente à etnia indígena Wayúu – que está em busca de emitir um novo documento de identidade, e, com isso, exercer seu direito ao voto.
O contexto, em si, já abordaria um complexo retrato de resistência identitária, contudo, tem-se como agravante a presença do deserto que a separa dos recintos burocráticos, ao qual, durante os 87 minutos do documentário, Georgina e o espectador percorrem à pés descalços.
Exibido na 14ª Mostra Ecofalante de Cinema, em São Paulo, o filme documenta as longas distâncias percorridas por Georgina no deserto colombiano, enquanto lida com as morosidades relacionadas à garantia de direitos fundamentais.
Neste trabalho narrativo, onde o espectador é onipresente, a direção se mostra consciente de suas intenções e acerta em nos transportar para dentro das choupanas que abrigam vidas simplórias, vulneráveis ao tempo (que parece passar lentamente), sentindo a areia suspensa no vento escaldante.
Ainda que os enquadramentos utilizados pela direção pareçam secos e simetricamente posicionados, há poesia no simbolismo de suas composições, que demonstra fluidez ao expor uma jornada incerta em busca de reparação. Há momentos em que Georgina se mostra fragilizada, complacente às barreiras burocráticas e entregue às limitações físicas da velhice. Em outros, demonstra inconformidade com os dissabores de sua vida, mostrando relances de uma revolta escondida num semblante plácido. A dualidade de sua personalidade se mostra sempre presente, seja em seu olhar estático em frames centrados, ou quando, esporadicamente, solta frases como “A noite, às vezes, um espírito me ataca”.
A fotografia é repleta de cenários desérticos, reforçando a miséria bucólica das pessoas retratadas. As cores na tela criam uma atmosfera seca, mas que desenha paisagens de uma natureza bruta, áspera como as nuances da própria Georgina. A vastidão do deserto enfatiza a solidão dos personagens em suas realidades, imersos numa subsistência comum aos grotões da América Latina.
O filme não percorre, diretamente, os determinantes políticos em seu argumento narrativo, mas enfatiza simbolismos complexos da luta pela reafirmação identitária de vidas marginalizadas, esclarecendo, cena a cena, as mazelas sociais que moldaram a exclusão de uma Georgina que, mesmo fragilizada, persiste na luta pelo reconhecimento do seu verdadeiro eu.
Como documentário, “Alma do Deserto” não se contenta em expor a realidade nos moldes tradicionais de documentação – nem se resume ao retrato asséptico de uma vivência sofrida -, mas recorre à uma visão poética repleta de empatia e resiliência ao expor que a luta identitária de pessoas trans não deve ser vista como uma jornada exclusiva de um indivíduo, mas como responsabilidade coletiva da sociedade em que vivemos.















