Premiado no Festival de Cinema de Vitória, Olhar do Norte e Mostra Curta Goiânia, “Meus Santos Saúdam Teus Santos” tornou-se uma das obras mais prestigiadas do cinema nortista nesta década. Comandado pelo paraense Rodrigo Antonio, o curta-metragem uma jornada íntima de reconexão espiritual do próprio diretor com a raízes familiares ligadas à pajelança na região do Marajó, no Pará.
Agora, quatro anos depois, Rodrigo amplia a história para o primeiro longa-metragem da carreira intitulado até o momento de “A Jovem Pajé”. Com foco na jovem Ana Clara e todo o processo de coroação dela para se tornar uma pajé, as gravações iniciaram na primeira quinzena de julho e segue até o início de agosto em Belém e no Marajó. Produzido pela produtora audiovisual nortista Leão do Norte – a mesma do sucesso “Pés de Peixe” -, a obra foi vencedora do edital Novos Realizados, da Ancine.
Em uma conversa franca realizada em abril, Rodrigo Antonio revelou detalhes do projeto com exclusividade ao Cine Set, além de recordar dilemas internos vencidos ao longo do processo de “Meus Santos Saúdam Teus Santos” e a importante decisão de se dedicar totalmente ao longa, incluindo, o pedido de saída do cargo de diretor de formação e inovação audiovisual no Ministério da Cultura.
‘CHAMADO ESPIRITUAL QUE SE IMPÔS’
O universo de “A Jovem Pajé” está nas raízes do diretor. Para entender esta história, vamos voltar para o início dos anos 2010: vindo de uma família paraense de origem humilde e formado em História pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Rodrigo estudava produção de cinema na tradicional Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICTV), em Cuba, quando recebeu a notícia preocupante: a avó com quem tinha uma relação muito especial estava internada há dois meses com uma doença em estágio bastante avançado. “Meu filho, ela só está te esperando”, alertou a outra avó dele.
Ao chegar no Pará, Rodrigo reviu a avó pela última vez e, pouco depois, ela acabou falecendo. Era 2013. Essa despedida, entretanto, não foi total. “Eu passei a vê-la, sentindo a presença dela”, recordou o diretor. Este foi um dos primeiros passos para uma reconexão com o lado espiritual, adormecido por um longo tempo na vida daquele estudante.
De volta a Cuba, Rodrigo visitou o pai de santo de uma amiga que era da santeria cubana, religião afro-caribenha que combina elementos da fé iorubá com o catolicismo romano. “De início, ele já disse que eu era de água doce, não era de Cuba. Foi então que falei que era de Belém. Ele respondeu que sim e que havia gente me esperando lá. Após alguns rituais, o pai de santo recomendou que eu voltasse para o Marajó quando pudesse”.
Rodrigo retornou ao Brasil em 2015, mas, não para o Pará. Foi tentar a vida em São Paulo, tal qual fazem muitos nortistas em busca de um mercado de trabalho mais amplo, especialmente, no audiovisual. Novamente um sinal para esta reconexão espiritual com suas origens no Marajó aconteceu ao visitar um terreiro tradicional da família de um amigo na capital paulistana, onde foi tratado com muita reverência: “A Gira já havia iniciado e o Boiadeiro veio e me tratou de forma muito honrosa, dando um lugar de destaque, me deu de comer e beber. Foi quando ele disse: “meu filho, você já cruzou muito a porteira. A resposta que está buscando está lá na primeira porteira”. Foi um chamado espiritual que se impôs”.
Este chamado acertou em cheio Rodrigo, afinal, o desejo de voltar para a Região Norte estava começando a se sedimentar. Na época, o produtor paraense havia trabalhado em “Boto”, série amazonense da Artrupe Produções, e dava os primeiros passos para a criação da Leão do Norte, produtora formada por Carlos Barbosa e Clemilson Farias.
“Foi um encontro com a minha potência: na Região Norte, eu poderia ser mais até para contribuir mesmo. Tudo começa a configurar para este retorno. Passo uns meses em Manaus, iniciamos a configuração do Matapi – Mercado Audiovisual do Norte. Vou para Belém e passo no concurso para professor substituto do curso de cinema”, disse Rodrigo.
CORPO NEGRO COMO ARQUIVO VIVO
A volta à Região Norte, entretanto, não estava totalmente completa: em 2018, Rodrigo, finalmente, retorna ao Marajó, onde acaba conhecendo a pajé Roxita. Neste encontro, ela informou sobre a necessidade dele em assumir a herança espiritual.
O interesse inicial de Rodrigo, entretanto, estava mais na pesquisa: na época, ele cursava o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Artes da UFPA. “Eu sempre tive muito interesse por filmes íntimos, cinema doméstico, refletindo, inclusive, sobre a ausência de arquivos. Como pensar o cinema negro, de cineastas negros a partir da perspectiva dos arquivos, algo incomum, pelo menos, para a geração dos anos 1990? Eu refletia que não tinha esta memória visual da minha família, da minha avó. Foi quando eu decido por voltar à academia justamente para debater arquivos”, recordou.
Foi durante os estudos que viu convergiu a ideia de aquilombamento da historiadora brasileira Beatriz Nascimento como uma possibilidade de escrita fílmica para cineastas negros em relação à própria história e ao mundo espiritual que precisava encarar. ““Meus Santos Saúdam Teus Santos” surge para pensar o corpo negro como arquivo vivo”, declarou.
Olhando o curta inserido dentro de uma série de produções que dão visibilidade para a Amazônia negra, como são os casos das obras da amazonense Keila Sankofa e da amapaense Rayane Penha, Rodrigo observa este processo como algo pertencente a uma série de ações para além do cinema. Isso inclui, segundo ele, desde as articulações do movimento negro nos anos 1970 passando pela criação da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial em 2003 até chegar na política de cotas que virou lei federal em 2012: “é impossível pensar a cultura e o cinema sem associá-las às políticas públicas no campo da educação. Acredito no afeto como política e o cinema como pertencimento”.
A DURA TRANSIÇÃO DE PRODUTOR A DIRETOR
Fazer “Meus Santos Saúdam Teus Santos” foi para além de um reencontro com a espiritualidade e o passado ancestral de Rodrigo: o curta-metragem serviu também como a afirmação de que poderia avançar para além do que jamais imaginava no audiovisual. Isso porque ele admite que tinha uma relação bastante pragmática com o cinema ao pensar que o setor de produção era o caminho que deveria seguir, inclusive, na escolha do curso em Cuba. Segundo ele, na época, não tinha pretensão de dirigir, se interessava pelo posto de comando de projetos, de pensar estratégias para as histórias existirem, mas, não necessariamente no comando criativo de um filme ou série.
“Havia uma não-autorização minha mesma, a partir da origem social que tive – negro, da periferia de Belém -, de que eu poderia experenciar o fazer artístico. Logo, me colocava no cinema em um campo político, da produção e de sobrevivência mesmo”, revela Rodrigo. Para ele, assumir a direção de “Meus Santos Saúdam Teus Santos” somente foi possível porque o filme estava associado ao projeto de pesquisa dele. “Se eu dizia que a ideia de aquilobamento de Beatriz poderia apresentar uma maneira de escrever roteiros de uma maneira afrocentrada era preciso experimentar isso. Eu vivi um processo de me autorizar a falar porque nos estudos eu reconheci a importância das minhas histórias”.

Rodrigo Antonio orienta Ana Clara durante o intervalo das gravações de “A Jovem Pajé”. Foto: Carlos Barbosa
A história pessoal de Rodrigo apresentada em “Meus Santos”, entretanto, foi muito além do que ele imaginava: aos poucos, o filme conquistou espaço nos festivais brasileiros e internacionais com boa repercussão junto ao público e a crítica. Toda esta etapa, aliás, rendeu um susto bem-vindo para o agora diretor: uma chamada de vídeo com Sheila Walker, antropóloga internacionalmente conhecida pelo trabalho em pesquisas relacionadas à Diáspora Africana.
“Ela perguntou tudo sobre o filme, conversamos com meu inglês deficiente e que fica ainda pior diante do meu nervosismo (risos)”, disse, recordando ainda que Sheila o convidou para participar de uma aula online na Universidade de Washington para um grupo de pesquisa dela formado somente por alunos negros.
O LONGA ‘A JOVEM PAJÉ’

“A Jovem Pajé” também marca o primeiro longa-metragem produzido pela produtora Leão do Norte. Foto: Layse Macedo
Após “Meus Santos Saúdam Teus Santos”, Rodrigo Antonio lançou o curta “Casa de Luiza” em 2023 e assumiu um cargo no Ministério da Cultura logo no início do Governo Lula. O universo do primeiro filme da carreira, porém, continuava ali, como uma história que ainda não acabara.
Após serem contemplados no edital de Novos Realizadores da Ancine em 2023, e diante de mudanças sobre a perspectiva da narrativa, o filme sai exclusivamente da experiência de Rodrigo e passa a abranger cinco pessoas de origens sociais diversas, em estágios diferentes sobre ser ou não pajé com todas as angústias, desejos, hesitações medos provenientes deste processo. A protagonista é uma moça de 26 anos chamada Ana Clara a qual está em vias da coroação. Todos eles são guiados por Roxita.
“Me interessa acompanhar e dialogar com ela sobre esse momento, de como essa decisão se insere na vida de uma pessoa jovem como ela, exploramos como a espiritualidade se manifesta em uma geração que vive entre o mundo urbano e o mundo encantado. É possível conciliar dois mundos? Viver um, sem abandonar o outro? Acompanhar essa jornada também nos permite apresentar ao público a cosmovisão da encantaria da Ilha do Marajó, onde a pajelança, entrelaçada às tradições indígenas, negras e cristãs, resiste, se reinventa e se atualiza. Ele se torna, portanto, não apenas um registro, mas, também um gesto de afirmação em favor da coexistência de religiosidades existentes no território””, explica Rodrigo.
Com uma equipe formada por nomes importantes do audiovisual nortistas – Valentina Ricardo na direção de fotografia, Heverson Batista no som, Maurício Moraes na assistência de direção, Beatriz de Oliveira na direção de arte, Eduardo Resing na montagem, Lucas Coelho no desenho de som, João Gabriel Riveres (Sem Rumo) na finalização e João Gabriel na pós-produção -, “A Jovem Pajé” marca o primeiro longa da Leão do Norte. Para Carlos Barbosa, um dos sócios da produtora, a logística no Marajó será o principal desafio operacional para o projeto, mas, segundo ele, a experiência de já ter trabalhado em grande parte das capitais nortistas em longas como “Noites Alienígenas” e “A Febre” favorece do ponto de vista da experiência.
“É superimportante ver esta trajetória sendo colocada em prática. Isso nos brilha os olhos até para pensarmos em outros processos, sonharmos como podemos fazer mais e mais”, declarou o produtor executivo.
DEDICAÇÃO EXCLUSIVA
Fazer o primeiro longa-metragem da carreira já seria um marco importante para Rodrigo. Um longa originado do curta premiado e elogiado com uma história tão familiar ainda mais. “A Jovem Pajé”, no entanto, representa uma possibilidade inédita dentro da vida do diretor paraense.
Se em “Meus Santos”, Rodrigo dividia as atenções com a pesquisa do mestrado e o desenvolvimento da primeira edição do Matapi, e “Casa de Luiza” convergiu justamente no período em que trabalhou MinC, o novo longa será um trabalho de dedicação absoluta e exclusiva. Para tanto, ele deixou o cargo na Secretaria do Audiovisual no início de 2025 para embarcar em “A Jovem Pajé”.
“A realidade de onde a gente vem ainda não me permitiu viver algo plenamente do ponto de vista profissional que eu busco agora com o longa. É o que quero me dar, dar à Leão do Norte de me dedicar a isso quase que exclusivamente”, disse. Que as entidades abençoem esta linda trajetória pelo Marajó.















