“A nostalgia é superestimada”. A fala proferida lá pelas tantas neste “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado” pode parecer inócua e até espirituosa, mas irrita. E irrita porque sinaliza que o filme quer cortar para os dois lados: ele apela para a nostalgia ao mesmo tempo em que a critica com uma piscadela marota. É um daqueles usos baixos e grosseiros da meta-ironia-espertinha, que já se tornou fichinha no cinemão.
Irrita, porque, afinal, isto é uma legacy sequel — para usarmos o linguajar que a franquia “Pânico“, exemplo-mor da meta-ironia-espertinha, instituiu em suas últimas iterações. Isso significa dizer que o longa é, em parte, remake do filme de 1997, e em parte sua sequência; personagens antigos reaparecem sob a efígie envelhecida de atores veteranos (a exceção é Sarah Michelle Gellar, que também reaparece, mas debaixo de um de-aging/rejuvenescimento com cara de filtro de Instagram). Esses personagens, com uma exceção crucial (e até interessante), acrescentam pouco ou quase nada à trama.
E irrita, principalmente, porque “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado” vinha sendo bacana até então. Os arquétipos dos personagens são mais ou menos os mesmos — a patricinha, o playboy, o mocinho pobretão e a mocinha com senso de justiça. É a dinâmica entre eles, bem como o acidente que eles causam (força-motriz da trama), que foram alterados — e para melhor.
Falávamos há pouco da franquia “Pânico”. Se, em seu auge, esses filmes funcionavam a despeito de suas piscadelas, isso se devia não ao roteirista Kevin Williamson (que também criou esta franquia); o segredo estava na direção elegante do saudoso Wes Craven, que ancorava as piadas com um bem vindo senso de gravidade. Assim, o fato de conhecer as regras dos filmes pouco serve à pobre Sidney Prescott; ela segue sendo arrastada em um ciclo de violência inexorável do mesmo jeito.
Sem Craven, o roteiro original de Williamson para “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado” era uma mera tiração de sarro com seus personagens mesquinhos, com o agravante de vir embalado em uma trama inexplicavelmente convoluta. Aqui, a diretora Jennifer Kaytin Robinson simplifica as coisas (relativamente falando) e torna seus protagonistas mais carismáticos, o que já é um baita avanço. E se algumas doses a mais de gore fariam bem à matança, também é verdade que o assassino deste filme faz um trabalho melhor que sua contraparte original (não que isso fosse lá muito difícil).
Mesmo com os acenos na direção de outros remakes-reboots-legacy sequels recentes (há uma podcaster de true crime reminiscente do “Halloween” de David Gordon Green, por exemplo), o filme vai se sustentando de forma sólida. É tudo divertido e inofensivo. Por que, então, o filme decide dar um giro de 180° e embarcar de vez na ironia nostálgica em seu terço final, isso só Deus sabe.
Até antes da sessão, a auto-indulgência alienada dos executivos de Hollywood já nos levava a questionar: quem, em 2025, realmente se importa com aquele filme de 1997? Quem se importa com os easter eggs e cameos e menções a um filme que sequer era lá grandes coisas, para começo de conversa? É verdade que minhas objeções poderiam ser desmentidas facilmente, a julgar pela reação entusiasmada dos influencers na pré-estreia, que curtiram a divertida ativação da distribuidora no saguão do cinema — com direito a assassino fantasiado e tudo o mais. Mas sabemos que esse tipo de termômetro é suspeito; há de se esperar com vivo interesse a recepção do grande público, especialmente dos que sequer eram nascidos em 1997.
Por fim, é preciso usar o honorável espaço que o Cine Set nos concede para fazer um breve protesto. Lá pelas tantas, o filme sugere que os fetiches masoquistas de nossa protagonista, Ava, se devem à culpa que ela sente por ter se omitido no acidente que abre a trama. Pois bem: este crítico se coloca veementemente contra esse tipo de psicologismo barato, e reafirma seu compromisso com todos os verdadeiros pervertidos espalhados pelo Brasil. Sem kink-shaming.














O texto estava bom até o autor questionar “quem se importa com um filme de 1997?”. Sério que ele perguntou isso? Muita gente se importa. Esse filme marcou uma geração e o revival dos slashers no final dos anos 90. E, para piorar, usa influencers como exemplo. Se ninguém ligasse pra esse filme, não teriam feito outro 25 anos depois, não acha?