O cinema de possessão demoníaca vive em uma linha tênue entre o medo ancestral e o desgaste narrativo. Desde que O Exorcista assombrou plateias na década de 1970, Hollywood insiste em retornar ao quarto fechado, à jovem possuída e ao padre em crise de fé. O Ritual (2025), novo longa de David Midell, tenta resgatar essa tradição a partir do famoso caso de Emma Schmidt, ocorrido em 1928, mas encontra conforto demais naquilo que o público já conhece, evitando riscos que poderiam reinventar o gênero.

A história acompanha o veterano padre Theophilus Riesinger (Al Pacino), chamado para realizar um exorcismo complexo no interior de Iowa, ao lado do jovem e cético padre Joseph Steiger (Dan Stevens). Emma Schmidt (Abigail Cowen) se torna o epicentro de uma batalha espiritual que dura dias, cercada por freiras e uma paróquia mergulhada na escuridão do medo. A narrativa alterna entre os rituais e os dilemas de fé do padre Steiger, mas raramente aprofunda esses conflitos. O filme prefere acelerar a decupagem: ritual, pausa dramática, mais ritual. Em pouco tempo, o terror cede lugar à repetição.

Visualmente, O Ritual aposta em câmeras trêmulas e closes sufocantes, como se quisesse aproximar o espectador da dor de Emma. A fotografia de Adam Biddle cria bons momentos nas sombras, mas se torna prisioneira da fórmula. O design de som e a trilha de Jason Lazarus e Joseph Trapanese reforçam a tensão, especialmente nas cenas em que a voz da possuída se distorce em guturais quase animalescos. Ainda assim, a atmosfera acaba previsível — sentimos mais o esforço do filme em parecer intenso do que uma imersão genuína no terror.

O que salva a experiência são as atuações: Abigail Cowen constrói uma dualidade convincente entre a fragilidade da vítima e a fúria demoníaca. Dan Stevens entrega uma jornada de fé abalável, ainda que pouco desenvolvida, enquanto Al Pacino, mesmo em um projeto menor na carreira, prova que sua presença em cena é capaz de sustentar diálogos que beiram o panfletário. Sua figura corcunda e cansada empresta ao filme uma gravidade que o roteiro, sozinho, não conseguiria alcançar.

Dentro do subgênero, O Ritual se posiciona em um espaço intermediário. O cinema de exorcismo já passou por tentativas interessantes de renovação: o primeiro O Último Exorcismo (2010) e O Exorcismo de Emily Rose (2005) encontraram frescor ao flertar com o found footage e com uma abordagem quase processual do horror. No extremo oposto, O Último Exorcismo 2 (2013) e Filha do Mal (2012) sucumbiram à caricatura, transformando medo em espetáculo vazio. Mais recentemente, Entrevista com o Demônio (2023) mostrou como ressignificar o subgênero com inteligência, apostando em metalinguagem e sugestão, sem abrir mão da tensão.

Midell, no entanto, opta pelo caminho seguro. Evita o sensacionalismo das piores tentativas, mas também não alcança a ousadia dos melhores exemplos. Ao fim, O Ritual cumpre sua função como entretenimento para quem ainda se interessa por histórias de possessão, mas dificilmente deixará marcas duradouras. O mal, no cinema, sempre encontra uma forma de voltar — aqui, retorna sem novidade, apenas como um eco de histórias que já conhecemos de cor.

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