Na recente onda do cinema de horror, cineastas têm explorado vários aspectos sombrios da vida humana e um deles é o relacionamento a dois! Isso na verdade não é nada novo, mas nos últimos anos têm aparecido filmes estranhos e bizarros que abordam relacionamentos disfuncionais, como Midsommar (2019), O Homem Invisível (2020), Até a Morte (2021), Fresh (2022), etc., para ficar só nos hollywoodianos.

Juntos, do diretor/roteirista Michael Shanks, em seu primeiro longa-metragem, é mais um sobre um casal em crise, mas tem a inovação de levar essa crise um passo à frente, para o terreno do body horror. Nele, o casal da vida real Alison Brie e Dave Franco interpretam Millie e Tim, que estão juntos há bastante tempo e… já se acostumaram um com o outro. A atração quase não existe mais, e muita coisa entre eles fica represada e não dita. Um dia, se mudam para uma casa no interior. Uma coisa estranha acontece, e os dois começam a passar por uma estranha transformação, que pode envolver ficarem juntos, e muito próximos – literalmente, e para sempre.

É o tipo de filme que, quanto menos o espectador souber além dessa sinopse básica, mais vai se divertir, ou se espantar, com os desdobramentos da história. É um filme atmosférico e que toma seu tempo construindo seus personagens, principalmente Tim, que parece um poço de insegurança. Na verdade, a co-dependência do casal é construída de forma muito efetiva pelo roteiro, e também pelas interessantes atuações de Brie e Franco, que também acreditaram no projeto a ponto de serem produtores do filme.

O terror e o suspense vão se insinuando na narrativa, e são bem administrados pela condução do diretor – apesar de uma cena no início já dar o tom de que algo vai dar muito errado, numa homenagem legal ao clássico O Enigma de Outro Mundo (1982) de John Carpenter. Aos poucos, a cinematografia vai ficando mais sombria, e os efeitos de maquiagem – e alguma computação gráfica – vão aparecendo.

O diretor sabe administrar também alguns sustos, que nunca parecem gratuitos, e quando a parte de terror realmente começa, sentimos a progressão e o senso de diversão macabra de uma história que, em vários momentos, quer chocar o espectador.

Por isso, é uma pena que perto do final, o filme tenha alguns tropeços: aparecem algumas conveniências e explicações para fatos que talvez não precisassem delas, e uma cena envolvendo uma música conhecida das Spice Girls (!) acaba parecendo apenas um momento espertinho, pseudo-engraçado, de um filme que até então estava se equilibrando bem na fina linha entre o sério e o ridículo. A cena final também não é exatamente convincente, do ponto de vista narrativo.

Mas por boa parte da sua duração, Juntos explora muito bem justamente o horror de se viver num relacionamento apenas pela inércia, e também os perigos de uma co-dependência excessiva. No início, um dos amigos de Tim diz a ele, insinuando que o rapaz é controlado pela namorada, que “quando morrer, não quer ver a vida de outra pessoa passar pelos seus olhos”. Há algo de aterrador aí, e o filme funciona melhor quando nos lembra daquela famosa frase do filósofo Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”. No caso, o maior horror é não poder se separar, mesmo que seja da sua cara-metade.