PARA LER OUVINDO: “ALIVE” – SIA
Nos últimos anos, o cineasta Mike Flanagan tornou-se um dos grandes nomes do gênero terror. Transitando muito bem entre a televisão e o cinema, o diretor consolidou seu estilo e, principalmente, uma honrosa parceria com o grande mestre do terror/suspense, Stephen King em filmes como “Jogo Perigoso” e “Doutor Sono”. A dupla volta novamente a se encontrar em “A Vida de Chuck”.
Contudo, não espere o terror psicológico e o suspense: “A Vida de Chuck” é um intenso e bonito filme que fala sobre a vida. Um olhar otimista e espirituoso do que é viver. A vida plena e absoluta. Alguns podem estranhar esse lado da dupla, mas se minha palavra vale de alguma coisa, vos digo: assistam sem medo.
Dividido em três atos contados de trás para frente, conhecemos um mundo apocalíptico que está prestes a ter seu derradeiro fim, atingindo diretamente diversas vidas em comum. Como de Marty Anderson (Chiwetel Ejiofor), um professor de ensino médio e sua ex-esposa Felícia (Karen Gillan). Entre conversas filosóficas e crises existenciais, há uma curiosidade que permeia toda a cidade e as vidas em comum: quem é Charles Krantz?
Ao longo do ato 1 (Obrigado Chuck!), há diversos outdoors e propagandas com os dizeres: “Charles Krantz: 39 grandes anos! Obrigado, Chuck!”. O problema é que não se sabe quem é esse homem. O que há de palpável é que o mundo irá acabar tão logo.
Corta para o ato 2 (músicos de rua para sempre). Charles Krantz (Tom Hiddleston) se apresenta. Um homem comum, com uma carreira de bancário comum, um casamento e casa confortáveis e um filho adolescente. Certo dia em uma viagem à trabalho, enquanto a musicista de rua (Taylor Gordon) toca freneticamente bateria, ele inicia uma dança (a melhor sequência do filme), como uma espécie de exorcismo do corpo, se une a ele uma jovem (Annalise Basso) e o espetáculo acontece. Mas Charles Krantz – Chuck, para os íntimos – não consegue explicar o impulso da dança. Apenas se deixou ser.
Chegamos ao ato 3 (eu contenho multidões), o início de tudo. Nascimento, vida infantil e início da pré-adolescência e vida adulta de Chuck.
E quem é esse homem comum que contém multidões? É essa a lógica de King, juntamente com a inspirada direção de Flanagan, ao narrar a vida de uma pessoa que não é notória a nível de fama e fortuna, mas que dentro do seu mundo, atingiu diversas outras pessoas positiva ou negativamente. Viveu e aprendeu. E quando ele sucumbe à doença e parte desse mundo, o que resta?
Assistir esse filme me lembrou do discurso de Viola Davis quando recebeu o Oscar de Atriz Coadjuvante em 2017 por “Um Limite Entre Nós”. Na ocasião, ela diz que as boas histórias, essas inspiradoras e que devem ser contadas, vão para o túmulo, portanto, seria necessário exumá-las para dar dignidade e ouvi-las. Algo semelhante é o que diz a filósofa portuguesa Grada Kilomba em seu livro “Memórias da Plantação” (2019), quando fala que a história negra foi sepultada desumanamente e era preciso ressuscitá-la para poder reescrever e dar um sepultamento digno.
Dito isso, o supracitado elenco encabeçado pelo sempre excelente Tom Hiddleston está em sincronia com participações inspiradoras de Mia Sara e Mark Hill (como os avós de Chuck), Jacob Tremblay como Chuck aos dezessete anos; Benjamin Pajak (Chuck aos dez); Carl Lumbly e David Dastmalchian nos poucos momentos que aparecem preenchem a tela.
Portanto, Stephen King coloca a vida comum como o centro do universo, cada vida importa, é imensa como a galáxia, é envolvente, necessária e deve ser vivida plenamente para que, ao apagar das luzes, quando o mundo particular que conhecemos ruir, ainda haja esperança e amor para contar e se inspirar.













