Entre as várias razões de amar o terror em si, uma delas atende pelo nome de Stephen King. Foi graças ao escritor americano que durante a minha adolescência, eu passei algumas noites dormindo de luz ligada com medo de que os “terrores” dos livros/filmes que eram de sua autoria me visitassem a noite. Aproveitando o lançamento de A Vida de Chuck, mais um filme baseado em uma obra assinada por ele e sendo setembro o mês do seu aniversário (21/9), segue o meu top 10 de filmes favoritos do mestre do terror.
10. O Aprendiz (1998), de Bryan Singer
Dirigido por Bryan Singer dois anos antes dele ficar famoso com a adaptação dos X-Men, O Aprendiz é baseado no conto Aluno Inteligente e que faz parte do livro As Quatro Estações escrito em 1982. Nele, temos a história de um estudante (o falecido Brad Renfro) que descobre que o seu vizinho (Sir Ian McKellen, antes de virar Gandalf) é um criminoso de guerra nazista e o convence a compartilhar suas histórias, resultando numa relação perigosa entre os dois. O Aprendiz é um belo duelo de mentes doentias, a partir de uma abordagem assustadora sobre o nazismo, onde o terror humano pode estar no quintal ao lado sem que a gente perceba.
9. Jogo Perigoso (2019), de Mike Flanagan
Produzido pela Netflix, essa adaptação do livro homônimo de King lançado na década de 90 é tão boa quanto o original. O diretor Mike Flanagan (responsável por A Vida de Chuck) na sua primeira adaptação do escritor faz de Jogo Perigoso um estudo psicológico interessantíssimo ao mostrar o quanto somos eclipsados emocionalmente pelo nossos traumas. Nele, um casal (Carla Guggino e Bruce Greenwood) vai para uma casa no lago remota para apimentar a relação em um jogo sexual. Flanagan constrói um ótimo trabalho de mise-en-scène com direito a planos inusitados que ajudam a moldar o thriller psicológico dentro do cenário de tempo e espaço, encenando uma forte tensão claustrofóbica.
8. Conta Comigo (1986), de Rob Reiner
Um dos grandes filmes da Sessão da Tarde da Rede Globo, Conta Comigo é o melhor exemplo de que King poderia ir além do terror fantástico e nos emocionar com uma história juvenil de descobertas e laços de amizade. Adaptado do conto O Corpo, que também faz parte da coletânea As Quatro Estações, o filme narra a aventura de quatro amigos que saem em busca do corpo de um garoto desaparecido. A direção de Reiner permite que Conta Comigo seja um pequeno libelo sobre os laços de amizade na formação do caráter humano. É um cinema lúdico que capta de maneira sucinta a importância das memórias afetivas em nosso processo de amadurecimento e emancipação emocional.
7. Cujo (1983), de Lewis Teague
Só mesmo a genialidade de King para mostrar um dócil cão São Bernardo se tornando uma figura diabólica depois de ser mordido por um morcego e atazanando a vida de uma mulher e seu filho.
Considero Cujo – livro lançado em 1981 – um pequeno diamante jogado entre os porcos dentro do universo de adaptações cinematográficas do mestre. A direção de Lewis Teague consegue fazer uma espécie de versão terrestre de Tubarão, repleto de momentos tensos e claustrofóbicos. Escrevi para o Especial de Terror do Cine Set em 2018 uma crítica que explica melhor minha paixão por esta adaptação.
6. Louca Obsessão (1990), de Rob Reiner
Outra parceira entre Reiner e King, só que dessa vez focada em um terror psicológico assustador. Baseado no livro Angústia de 1988, Louca Obsessão mostra o escritor Paul Sheldon (James Caan), que após sofrer um acidente acaba sendo salvo por uma enfermeira (Kathy Bates), que é fã de suas obras. O problema é que ela descobre que o escritor quer matar sua personagem preferida e vai tornar a sua vida um inferno. A adaptação mostra nas imagens o quanto pode ser verossímil a insanidade e obsessão humana em situações limites. Kathy Bates – que ganhou o Oscar de atriz pelo filme – constrói uma das grandes vilãs do cinema. Sem dúvida, Louca Obsessão é um dos melhores jogos de gato e rato entre as adaptações do escritor.
5. Cemitério Maldito, de Mary Lambert (1988)
Posso dizer que tanto o livro quanto o filme estão no meu top 5 do escritor. A primeira versão de Cemitério Maldito (esqueça a refilmagem asséptica de 2019) acerta ao beber diretamente da fonte do cinema de horror da década de 80 criando uma atmosfera que combina a cenografia do local – a estrada mortal e a floresta em volta do cemitério – com elementos fantásticos. Neste quesito, a diretora Mary Lambert concilia a ingenuidade da época em relação aos dramas e perdas emocionais dos personagens com momentos sangrentos e violentos. O tom macabro alinhado a uma dose certeira de sarcasmo ajuda na criação da atmosfera gótica que eu particularmente acho bem próxima do livro de King. E, por fim, o que dizer da cena de atropelamento? Terror puro na essência da literatura de King.
4. O Nevoeiro, de Frank Darabont (2005)
A relação fílmica entre Frank Darabont e Stephen King sempre rendeu um belo match nas três adaptações que realizaram juntos. A diferença é que em O Nevoeiro – conto que pertence ao livro Tripulação de Esqueletos – o cineasta pode mergulhar mais a fundo no horror puro. Aqui, somos apresentados a uma névoa misteriosa que deixa preso um grupo de pessoas dentro de um supermercado. A partir desse ponto, Darabont faz um horror social que mistura apocalipse, fantasia e conspiração militar no intuito de analisar as principais temáticas acerca do comportamento social e das fragilidades humanas diante de circunstâncias desesperadoras. Marcia Gay Harden está soberba no papel de vilã do filme. O Nevoeiro é um dos grandes filmes de horror da década de 2000 e uma das melhores adaptações do universo de Stephen King.
3. O Iluminado, de Stanley Kubrick (1979)
Independente do ódio de King pela versão de Kubrick, a verdade é que O Iluminado é um filme que não é assustador na sua essência, mas que se torna pela atmosfera sinistra de loucura imposta pelo cineasta. É interessante o filme trabalhar o hotel Overlock como um organismo próprio, muito mais próximo de um hospedeiro parasita que desencadeia, em cada espaço, a solidão, a frustração e o isolamento, bem diferente, por sinal, da proposta do livro lançado em 1977. No geral O Iluminado é um filme para se sentir, puramente sensorial. Kubrick fez um verdadeiro conto de fantasma de gelar a espinha e com um plus de um Jack Nicholson encapetado literalmente.
2. Carrie – A Estranha, de Brian De Palma (1979)
A medalha de prata deste top 10 vai para Carrie – A Estranha adaptação do maestro Brian De Palma. O filme consegue caracterizar muito bem a essência do escritor: conectar o espírito do terror sobrenatural com o horror psicológico. É um filme que impressiona pela forma econômica e objetiva como trabalha as nuances do horror por meio do suspense psicológico. Reproduz com exatidão a vingança de uma jovem que sofre bullying como também a descoberta da sexualidade frente a intolerância e hipocrisia social-religiosa. Sissy Spacek e Piper Laurie fazem um belo confronto de gerações nas atuações.
1. Um Sonho de Liberdade, de Frank Darabont (1994)
Sim, meu filme N.1 adaptado do universo de Stephen King não é de terror e sim este belíssimo drama prisional, adaptado de outro conto de As Quatro Estações. É neste cenário que o grande Frank Darabont cria uma das mais belas amizades já encenadas pelo cinema. Um Sonho de Liberdade transborda humanidade e esperança. É aquele filme que te faz acreditar na vida e ser otimista perante as dificuldades, mostrando a sensação de pertencimento a história por meio da resiliência e o desejo de liberdade. E a cada revisão que faço dele, à medida que a idade avança, mas ele fica emocionalmente forte.
O Pior: Torre Negra & Apanhador de Sonhos
Por muito tempo considerava Comboio do Terror (dirigido pelo próprio King) a sua pior adaptação. Mas Torre Negra e Apanhador dos Sonhos conseguiram mostrar que o buraco é mais embaixo. O primeiro por estragar a grande série literária do escritor (que une o seu universo) e o segundo que traz uma invasão alienígena que produz seres que saem do orifício anal humano (!). Duas adaptações de sangrarem os olhos de qualquer fã do escritor.





















