PARA LER OUVINDO: “SEXTO SENTIDO” – XUXA

“O que você quer ser quando crescer”? Essa é aquela famigerada pergunta que se faz para as crianças no seu seio social e/ou escolar. E as respostas são diversas, por conta das vivências diversas e condições diversas. 

Pensando nessa questão que norteia “Depois de Longas Chuvas”, uma produção em parceria do Quênia e Suíça, trago essa canção muito bonita da Xuxa, ícone da infância dos millennials brasucas. Uma canção introspectiva que tem tudo a ver com o filme: “o que você quer ser quando crescer, qual é o seu sonho?”, canta a apresentadora.

NOTA DO AUTOR: não estou aqui para fazer juízos de valor de uma personalidade caucasiana com um filme inteiramente enegrecido. Não vamos nos apegar nessa questão e, sim, na letra. 

E é sobre sonhos e vontades de infância que o filme trata. Aisha (magistralmente interpretada pela doce e inexperiente Eletricer Kache Hamisi) é uma pequena menina de apenas dez anos de idade, moradora da empobrecida ilha pesqueira Witamu, localizada na costa norte do Quênia. Certa vez, o professor indaga a tão onipresente pergunta para a turma e a garotinha é certeira: quer ser atriz. Porém, o caminho não é e não será tão fácil para uma menina negra como ela e suas origens.

Esse olhar reflexivo do futuro está – ao que parece – intrinsecamente ligado na vivência de Damien Hauser, um jovem diretor negro nascido na Suíça, mas com fortes raízes ancestrais no Quênia. E isso fica claro no seu comprometimento na sua estreia em longas-metragens, assumindo a direção, roteiro, fotografia, montagem, música (em parceria com Simon Joss) e som (dividindo a função com Aaron Scheuber). Sabe aquela coisa de feeling? É isso que senti ao terminar a sessão do longa, o seu esmero e sensibilidade em tocar em temas tão delicados sem vilanizar ninguém por suas condições de vida é muito palpável.

Pois o filme não trata somente dessa questão do querer ser, desejar ser e poder ser. São várias questões que envolvem não somente a protagonista, mas toda uma coletividade da ilha que perpetua seus destinos sem ao menos questioná-los, por imposição, crença e faltas de oportunidades maiores.

Hauser toca na ferida na questão de gênero, quando Aisha, tão pequena, já deve assumir as funções predestinadas domesticas para as meninas e os meninos podem procrastinar e ter suas vontades atendidas, recorrente por aqui no Brasil também. Ou quem pode ou não pegar a água no poço: obrigatoriamente elas, pois para eles, ferem a sua masculinidade e poder do homem perante a sociedade. Ou quando Aisha resolve aprender a pescar para, futuramente, ter o seu barco e chegar na Europa e realizar o seu sonho. Fica em maus lençóis com sua família e amigos: coisa de homem fracassado, assim como o seu mentor, o pescador bêbado e briguento, Hassan (Bosco Baraka Karisa). O pensamento machista e patriarcal se aprofunda na ótica do trabalho de mulher x trabalho de homem.

E o mais doloroso de todos: sua mãe, sempre atarefada e altiva, não gosta de abraços e nunca lhe falou um “eu te amo”, quando a menina vocifera seu sentimento ela diz “que não tem tempo para besteiras”. É o peso da mulher, e aqui temos que fazer um recorte de raça, na sua condição de servidora do homem, do lar e dos filhos. Não há um momento de júbilo para esta mulher que carrega responsabilidades nas costas. E quais foram seus sonhos que foram enterrados na areia? Não saberemos. Assim como de outras tantas histórias parecidas.

Hauser também coloca a colonização como causa de uma comunidade fragmentada entre a tradição e a imposição. E isso fica claro nos objetivos dos demais personagens: ninguém ali tem sonhos, todos já estão predestinados a assumir o pequeno comércio de sua família, ser pescador e sobreviver com tão pouco que os sonhos, só mesmo nos poucos momentos em que estão ligados na televisão.

Com uma fotografia natural e solar, o clima é praiano, mas não há mordomias e alegrias aqui, não há tempo para trivialidades quando o chão ainda é de areia e muitas acomodações são quase que improvisos. Contudo, o figurino étnico das mulheres, estampam que, em meio à pobreza e a falta de realização, há um momento para a vaidade, mesmo que elas mesmas nem saibam disso, e está aliado à cultura e tradição.

O final fantasioso soa como um sonho do diretor e que se encaixa nessa obra tão simples, tão elegante e tão verdadeira que faz pensar que ele, o aguardado sonho, pode demorar, mas um dia ele chega. E quando ela não chega? Como encarar a realidade que nos custa tanto?