Megadoc nasce daquele tipo de produção que parece pedir um segundo filme para existir. Mike Figgis se aproxima dos bastidores de Megalópolis não como alguém que pretende organizar o caos, mas como quem compreende que a matéria-prima ali é justamente a desordem. O documentário acompanha um processo que se desfaz à medida que tenta se construir, e encontra nesse contraste uma força difícil de ignorar.

Francis Ford Coppola aparece como uma figura movida por uma fé quase inabalável na própria visão. Ele acredita que Megalopolis deve existir e ponto final. Mas essa convicção, que parece ilimitada em termos financeiros, esbarra naquilo que nenhum diretor consegue comprar: a autonomia dos artistas ao seu redor. Shia LaBeouf vira o exemplo mais evidente disso — uma presença que não se curva, que tensiona, que devolve tudo na mesma intensidade, e que expõe a fragilidade por trás do poder absoluto do cineasta.

O set, aos poucos, perde consistência. Departamentos deixam o projeto, discussões se acumulam, decisões mudam no ritmo da ansiedade coletiva. O desgaste fica nítido nos corpos e nas falas, e Figgis simplesmente observa, sem tentar transformar em narrativa aquilo que já nasce como um colapso em câmera lenta. Até as ausências chamam atenção: nomes que deveriam ser centrais aparecem menos do que o esperado, como se o desconforto também se expressasse por vias silenciosas.

No meio desse movimento desordenado, há esforços que revelam muito sobre o modo como Coppola trabalha. Ele cria exercícios teatrais, tenta aproximar a equipe, inventa dinâmicas que funcionam como tentativas de recuperar o controle do ambiente. Quase sempre improvisado, quase sempre instável, mas honesto no desejo de manter o projeto respirando.

E, enquanto tudo isso se desenrola, Aubrey Plaza surge como um ponto de lucidez. Ela não disfarça a estranheza diante do roteiro, tampouco a sensação de estar entrando em um território indefinido. Esse desconcerto inicial se transforma, e a relação dela com Coppola ganha corpo com o tempo. Figgis captura essa mudança com naturalidade, e é curioso como justamente ela — alguém que admite não entender completamente o que está acontecendo — acaba oferecendo as reações mais humanas do documentário.

Há algo quase histórico em perceber como Coppola repete um padrão: seus filmes gigantes produzem bastidores igualmente gigantes. Heart of Darkness já tinha evidenciado isso; Megadoc apenas confirma que, ao redor dele, o processo vira espetáculo antes mesmo do resultado final existir. A megalomania não está só na concepção do projeto, mas em tudo o que se forma ao redor — as tensões, o humor involuntário, as desistências, a insistência.

Ainda assim, dentro do escombro, existe uma alegria específica em fazer cinema que o documentário registra com uma espécie de carinho inesperado. Mesmo sem entender totalmente o filme que estão ajudando a construir, há quem se dedique de corpo inteiro. Há quem acredite junto. E há Coppola, que insiste, tropeça, recomeça, duvida e reafirma a mesma ideia como se não houvesse alternativa.

No fim, Megadoc não tenta explicar Megalopolis, tampouco defendê-lo. Ele serve como rastro, como testemunho, como memória de um processo que mistura convicção e desordem até que já não seja possível separá-las. É um registro de um projeto que parece sempre à beira de ruir, mas segue adiante por pura força de vontade. Um filme sobre a crença obstinada de um criador — e sobre tudo que se quebra, se desgasta e se reinventa ao redor dessa crença.