A concepção do indivíduo como ser social se torna ampla e difusa quando é conferido que este só será querido quando integrado em alguma comunidade ou coletivo. Tal ideia pode ser medida por dois lados: um seria o olhar estrutural e moral que impõe preceitos por décadas e décadas de convívio ordenado de um grupo ou local; enquanto a outra, em análise de uma visão mais psíquica, reflete no sentimento de abandono e, por consequência, da solidão despontada como algo aflitivo. O Filho de Mil Homens, novo filme nacional com produção da Netflix, consegue revelar o “querer pertencer” dessas naturezas existentes sob uma ótica poética e sensível.

De adaptação do romance do escritor português Valter Hugo Mãe, O Filho de Mil Homens relata vários contos dentro de uma só história passada em uma pequena vila perto do mar, assumindo a mesma temática: a solidão humana e a busca por pertencimento. Crisóstomo (Rodrigo Santoro) é um pescador de 40 anos que vive em uma casinha praiana à beira-mar, com o sonho de sua vida ser pai. Caminhos colocam o pescador junto ao de Camilo (Miguel Martines) menino de 8 anos que se encontra abandonado após a perda de todos os seus parentes; Antonino (Johnny Massaro) é um morador da vila que carrega a repressão em casa pela mãe religiosa e a violência que sofrera por conta da sua sexualidade desde a infância; já Isaura (Rebeca Jamir) está entre os efeitos irreversíveis da culpa e o rastro de medo que a fizeram repulsiva a qualquer interação direta. Todos estes personagens se interligam em sua temática principal, em que a base – dividida em capítulos – permite a cada um deles, o cerne da sua história individual, onde, no fim, os pontos irão se conectar de forma especial.

Nesse sentido, é importante destacar o processo de transposição da obra literária aos cinemas pelas mãos de Daniel Rezende, diretor e roteirista do longa. De caráter poético e sublime, o romance oferece uma aproximação às personagens de forma íntima, pois somos tragados a uma narrativa idílica e imersa de sensibilidade. Cada protagonista apresenta um arco sinuoso para enfrentar mediante às crueldades e incertezas da vida.

Assim, quando feita a transição da história para as telas, nota-se o constante cuidado e carinho em operar os instrumentos presentes na cinematografia sem perder um mínimo resquício da essência e raiz do livro. De fato, o romance parte em uma jornada mais abstrata a fim de uma profundeza mais livre e poética, a qual o filme se vale disso também – inclusive a se modelar com poucos diálogos presentes – mas sem deixar de lado questões diretas e expositivas. “Pouco do que tinha lhe servia para a felicidade” evoca as duas obras, plenas de si em afirmar a verdade de suas criaturas principais ao precisar o quão suficientes estas são ao tentar seguir frente ao sentimento de abandono de espírito ou alma.

Com essa perspectiva, a divisão em sete capítulos de O Filho de Mil Homens difere dos vinte apresentados no livro, todavia não há sinais de falta de material algum, tendo muita força em cada cena. Existe um retrato poético poderoso em um olhar plano, do mesmo modo, nas entrelinhas de cada movimento. É palpável.

A direção de Daniel Rezende é belíssima e busca traduzir a grandeza e unicidade do material fonte, onde se consegue reparar uma atenção singular em cada curso da câmera e na intenção de procurar crueza e sensibilidade na mesma proporção. Conhecido por ter sido montador em filmes como Cidade de Deus, o agora diretor de Bingo – O Rei das Manhãs e Turma da Mônica: Laços e Turma da Mônica: Lições, ele, desta vez, tem no trabalho de montagem de Marcelo Junqueira um grande aliado aqui. O Filho de Mil Homens é costurado de forma não linear, e essa ordem não cronológica é interessante sendo que serve como motor às linhas condutoras da produção, em que pese o entrelaçamento das histórias que surge de forma orgânica e inesperada, com um bom trabalho de fluidez técnica do trabalho de Junqueira e Rezende. A direção de fotografia de Azul Serra soa irretocável em contrastar os ambientes escuros com feixes de luz ao fundo, destacando o senso de solidão e quase abandono dos personagens, assim como realça o azul interminável na casa de Crisóstomo aludindo ao mar.

Alinhados numa melancolia de espaços, os seres de O Filho de Mil Homens são espécies em transe da própria condição humana. Por exemplo, o ímpeto de querer ser pai é atribuído a Crisóstomo de maneira a espelhar vontades, ou seja, ora na criação de um boneco de pano a acompanhá-lo, ora ao perguntar na vila se há alguma criança sem pai, seu desejo pressupõe a razão de possuir. Pois mesmo sendo quem é, um pescador pacato, quieto e isolado do meio, visto como estranho, ainda se faz presente nele, a grande chama da paternidade. A rememorar talvez Geppeto e Pinóquio, temos Crisóstomo e seu boneco, propósitos parecidos em aspectos distantes, mas sempre a conduzi-lo à figura do pai perdido que se acha dentro da presença viva do filho, nesse caso, Camilo.

Não menos incisivos são os contos de Camilo, Antonino e Isaura. O primeiro possui antes mesmo de nascer, uma trágica história advinda de sua mãe Francisca (Juliana Caldas) passando pelas pessoas que o criaram até chegar, por acaso, na vida de Crisóstomo. Sendo àquele a qual o título se refere, suas descobertas e olhares se transformam quando em contato com a figura de um possível novo pai. O personagem de Johnny Massaro é cercado por uma vida reprimida na própria vila que mora, alvo de abusos e violências, o chamado “maricas” por tantos, é também desprezado pela própria mãe, Matilde (Inez Viana), fanática religiosa. Antonino prática em olhares as dores pungentes do aprisionamento, de não poder ser, ou pior, de não se pertencer. Isaura é a representação de uma jovem que é traumatizada pelas ações da vida, a qual, um ato consumado desperta nela as piores sensações que levará para a vida. Temores e tristezas de Isaura muito se dão pela indução que teve em sua criação, “o amor estraga tudo” é uma frase retomada sempre em sua mente, e personifica o trauma vivido.

Por essa composição, encontramos nessa corrente quatro indivíduos que permanecem. A poética da obra de Valter Hugo Mãe nunca escondeu sua síntese de afeto em seres desencontrados, abandonados pela vida a se encontraram em um lugar-comum. Quando finalmente suas mãos se tocam na história, nos sentimos acolhidos e como pedaços também de uma união condizente.

O Filho de Mil Homens é uma grande adaptação e um grande filme, fruto de muita sensibilidade e verdade de seus realizadores. No final, ao rolar dos créditos, vimos os dizeres “Escrito , Dirigido e Sonhado por… “ “Produzido e Sonhado por… “ o que mostra um pouquinho da visão apaixonada de seus envolvidos. E assim como os personagens gritam para aliviar dores e se sentirem abraçados, senti com esse filme, um abraço parecido.