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Há um clássico na literatura norueguesa intitulado “Hedda Gabler” (1891) de Henrik Ibsen que extrapola as convenções sociais e comportamentais do que é ser mulher no mundo dos homens e como essa mesma mulher se submete aos mais diversos desígnios para sobreviver nesse mundo. Usando e abusando de manipulação e vulnerabilidade, as mulheres daquela época, sob o olhar clínico de Ibsen, vivem nessas dualidades. Anacronismos à parte, a condição da mulher e os princípios que as moldam, à exemplo de um outro clássico lançado mais de cem anos antes de Gabler, “Júlia ou a Nova Heloísa” de Rousseau, dialogam entre si na questão da virtude da mulher.

Vejam bem, eu nunca li “Hedda Gabler”, mas assistindo a nova roupagem de 2025, não há como não apontar similaridades entre estas obras e outras tantas na literatura e no cinema. Pois os modelos estabelecidos do que é ser mulher, seja nos séculos XVIII, XIX e XXI, mesmo que atualizadas em contextos sociais, deságuam sempre nesse lugar conservador de julgamento por seus impulsos e necessidades básicas.

Talvez pensando nisso, Nia DaCosta (“A Lenda de Candyman”, “As Marvels”), atualiza o romance de Ibsen, colocando a protagonista no centro da aristocracia burguesa inglesa de 1950 do século XX. Ela, agora uma mulher negra, diz muito com suas ações e fala mais ainda com seu olhar. Hedda Gabler, ou Hedda Tesman (seu nome de casada) é muito mais que se poderia imaginar. O olhar clínico e apurado de DaCosta, também uma mulher negra, faz da produção como um estudo de caso da psique de uma mulher negra, rica, envolvida em um berço social que historicamente ela não deveria pertencer e mais ainda, desejos e anseios reprimidos.

Com muita sofisticação e elegância, Hedda Tesman (ou Hedda Gabler?) organiza uma grande festa para a inauguração da sua majestosa mansão, junto ao marido, George Tesman (Tom Bateman), um academicista. Cercada de muito luxo, acadêmicos e alguns amigos boêmios do passado, ela recebe uma convidada inesperada, Thea Clifton (Imogen Poots) que lhe traz uma notícia angustiante; sua ex-mentora, Eileen Lovborg (Nina Hoss) está a caminho da festa e não apenas isso: ela é o principal nome e concorrente do seu marido para assumir um cargo importante na universidade.

Como supracitado, DaCosta é uma mulher negra e compreende como ninguém os anseios sociais que marcam corpos como os seus. Ao adaptar o romance e colocando luz em um protagonismo negro, ela clareia não somente na questão que atores e atrizes negros podem interpretar qualquer personagem, se bem escrito. Mas também toda a complexidade de um personagem que exige do ator e da atriz.

E aqui não foi diferente: a Hedda de Tessa Thompson é manipuladora, debochada, ardilosa, cínica ao mesmo tempo que é indefesa, vulnerável, angustiada, perdida em si mesma, sensual e a machucada pelo passado, presa nas convenções, em um grande vazio existencial e a falta de prazer em sua totalidade que seu marido e nem as joias e o castelo que a protegem do mundo, conseguem a proteger dela mesma.

Com planos ora muito abertos, ora em closes nos grandes olhos flamejantes de Thompson, DaCosta cria um clima teatral e oponente, a perfeita definição de mise-en-scène, que lembra um pouco Todd Haynes e Tom Ford, mas com assinatura própria, pois o ar pomposo e aristocrático é pequeno, perto do que é ser Hedda, uma mulher negra no mundo dos brancos e suas branquices que não saem de moda, embora se intitulem progressistas.

A fotografia de Sean Bobbitt, o figurino excelente de Lindsay Pugh, a direção de arte de Andrew Ackland-Snow e a trilha sonora de Hildur Gounadóttir, são um espetáculo à parte neste grande baile dos mascarados de cara limpa encabeçados pela anfitriã. A cena da dança quando toca “It´s so Quiet” da Bjork é um acontecimento.

Mesmo que seja um trabalho visual e psicológico de uma personagem tão profunda e rica, senti que o filme andou em círculos do meio para fim, tencionando em um marasmo que se solidifica tão somente por seu elenco, como Nina Hoss, intensa e expressiva, Nicholas Pinnock e a Poots, que é uma atriz que acho interessantíssima e com muito pouco aqui consegue entregar algo minimamente satisfatório.

O final em aberto coloca Hedda em diversos atravessamentos. Mas o mais importante é que, apesar das suas ações nada imaculadas, Hedda busca por sobreviver, ser quem é no mundo opressivo e ostensivo. Um mundo de fetiches, manias, desejos… um personagem em algum momento diz que “certas liberdades vêm com o poder”, e que poder é esses que a domina e ela que pensa dominar? Nem Hedda sabe mesmo quem ela é, sobra apenas o nome, um nome apenas: Hedda.

Autor

  • Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Viciado em cultura e divas pop. Apaixonado por audiovisual (e isso inclui os novelões). Produtor de cinco curtas-metragens, entre eles "Manaus Hot City" e "Meus Pais, Meus Atores Prefiros". Jurado na 5° Edição Olhar do Norte 2023 e Curador do Ecossistema do Audiovisual no Festival Aceita 2024. E contando...!

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