O cineasta Rian Johnson e sua criação, o detetive afetado Benoit Blanc, estão virando uma tradição: De vez em quando, Johnson se reúne com Daniel Craig, intérprete de Blanc, e chamam uma turma de grandes atores para encenar um daqueles mistérios à moda antiga, resultando em filmes que são perfeitos para se ver comendo pipoca, debaixo das cobertas, depois de um dia estressante. Entre Facas e Segredos (2019) começou essa curiosa franquia, na época ainda nos cinemas, e o segundo filme, Glass Onion: Um Mistério Knives Out (2022), já saiu pela Netflix. Os dois fizeram muito sucesso.

Felizmente, a fórmula continua dando certo com este Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out, e o longa traz alguns diferenciais que evitam a sensação de cansaço que muitas vezes acomete os terceiros capítulos de algumas franquias.

Neste novo filme, curiosamente, Blanc não é a figura principal: Nosso querido detetive e seus ternos divinos só aparecem mesmo depois de uns 40 minutos de história. O personagem principal é o padre Jud, interpretado com carisma e graça por Josh O’Connor. Jud é transferido para uma paróquia numa cidadezinha no estado de Nova York, e acaba sendo acusado do assassinato do padre local, com Blanc como o único disposto a provar sua inocência. Josh Brolin faz a vítima da vez, o padre que usa a religião para disseminar ódio (onde será que já vimos isso?), e entre os suspeitos e coadjuvantes temos gente como Glenn Close, Jeremy Renner, Andrew Scott, Cailee Spaeny, Thomas Haden Church, Kerry Washington e Mila Kunis. De novo, parece uma festa, para aqueles que participaram.

O público se diverte, também, com a coleção de lunáticos que Johnson, também autor do roteiro como sempre, cria desta vez, com direito até a uma galerinha de extrema-direita. Nos filmes anteriores, Johnson usava o mistério e o star power dos atores para fazer comentários incisivos sobre luta de classes (em Facas e Segredos) e a mentalidade tacanha do pessoal de tecnologia que hoje domina o mundo (em Glass Onion). Aqui, o subtexto é a religião, como ela pode ser corrompida e desvirtuada em nome dos interesses humanos. O contraste entre Jud, que deseja transmitir uma visão mais positiva da fé católica, com o padre Wicks de Brolin, e depois com o cínico Blanc, dá combustível e emoção à história.

O roteiro dá espaço para todos os atores brilharem, com destaque para Brolin e Close. Craig se mostra super confortável com o papel de quase-coadjuvante desta vez, e O’Connor é a maior qualidade da produção: Sua atuação é vivaz, engraçada e em certos momentos, sem medo de enfatizar o lado patético do seu personagem. O padre Jud é um achado e carrega a narrativa sem problema – o espectador realmente investe nessa figura, que conquista desde os primeiros minutos.

E é um filme muito bonito: O diretor de fotografia Steven Yedlin faz um trabalho extraordinário aqui, com composições contrastantes e cores quentes como há algum tempo não víamos numa produção que foi lançada direto para o streaming. Algumas vezes durante o filme, a iluminação muda dentro de cenários internos como a igreja ou a casa de algum personagem, mostrando a transição da luz solar para provocar um efeito emocional. Nada de fotografia padronizada estilo Netflix aqui, Vivo ou Morto parece e se comporta como um filme de cinema.

A partir de certo ponto, o filme se torna praticamente uma buddy comedy, um daqueles filmes onde parceiros se aliam para resolver um caso ou problema, com Blanc e Jud formando um par improvável. O filme lança uma piada divertida com a própria Netflix e em dado momento Blanc menciona o desenho Scooby-Doo, e de fato, esse é o espírito da produção: O mistério da história, infelizmente, perde um pouco do fôlego – afinal, o filme dura quase 2h30 – e a trama começa a parecer um pouco rocambolesca demais quando se aproxima do final. Mas no fundo, Vivo ou Morto dá mesmo umas piscadelas para o público e parece sempre consciente de que está mais próximo do desenho animado do que de um filme sério de verdade.

E é esse humor excêntrico que impede o filme de virar uma pregação para o público. Ao invés disso, Rian Johnson prefere deixar o espectador com um pouco de otimismo e uma mensagem tocante nesses tempos de intolerância e divisões. Não é toda festa que se encerra com uma mensagem bonita para aquecer o coração. Nada mal para um mera sessão-pipoca.