Como pais podem proteger suas crianças nesse mundo louco em que vivemos? Essa é uma pergunta que fica na mente do espectador ao final da sessão de Josephine, longa da diretora Beth de Araújo (de ascendência brasileira) exibido na principal mostra dramática do Festival de Sundance. É um filme poderoso e até pesado em alguns momentos, e grande parte desse poder vem das escolhas narrativas dos seus realizadores.
É a história da garotinha Josephine, pequena demais para se deparar com um fato absolutamente hediondo. Numa manhã de domingo qualquer, enquanto caminha com seu pai num parque, ela acaba testemunhando um episódio de violência sexual contra uma mulher. O agressor é logo preso, mas o incidente vai continuar na mente da garotinha e a atormentar seus pais, porque Josephine é a única testemunha do caso e a polícia insiste para que ela preste depoimento.
O longa passa então a explorar as consequências desse fato sobre a mente de alguém que não consegue compreender as implicações do que viu. Os pais de Josephine são interpretados pelos astros Channing Tatum e Gemma Chan, e eles são também produtores executivos do longa, o que demonstra que eles realmente acreditaram no projeto. Porém, o grande peso da carga dramática do filme recai mesmo sobre os ombros da pequena Mason Reeves, e felizmente a jovem atriz dá conta do recado – é a imagem do rosto dela que permanece com o público ao fim do filme.
E o feito dela fica ainda mais expressivo quando percebemos que a abordagem de de Araújo e da sua diretora de fotografia Greta Zozula não exatamente facilita o trabalho para a jovem atriz. Desde o início, a diretora estabelece a lógica visual do filme, que vai privilegiar o olhar infantil sobre os acontecimentos. Vemos cenas pelo ponto de vista de Josephine em vários momentos. A câmera também adota uma altura baixa com frequência, e há closes que praticamente vasculham o rosto da garotinha em momentos-chave da narrativa.
Para ressaltar o trauma da menina, frequentemente a encenação coloca o estuprador no cenário, como uma presença que só Josephine vê – a primeira vez que isso acontece é bem desconcertante. Pena que de Araújo acabe abusando um pouco desse recurso lá pelo meio do filme…
E há pelo menos dois momentos de planos sem cortes que ressaltam a tensão e as emoções da narrativa: O mais poderoso deles ocorre num tribunal e é um verdadeiro tour de force para Reeves, seus colegas de cenas que fazem os advogados e a própria câmera.
Longe de serem mera invencionices, esses aspectos da linguagem visual do filme conferem a ele o seu poder. Josephine poderia fazer como algumas produções fazem hoje em dia e se apoiar apenas na força do seu tema relevante, e alardear sua própria importância por causa disso. Mas o caminho escolhido por Beth de Araújo é outro: para além de um filme com temática atual e perturbadora, é também um belo exercício de cinema, e justamente por causa disso ganha ainda mais força.
Confiante a ponto de deixar alguns pontos da sua narrativa a cargo da interpretação do espectador, Josephine é um drama forte, muito bem dirigido e defendido pelos seus atores, e que toca em pontos delicados, propondo debate com pais e filhos sobre assuntos que eles talvez não quisessem encarar. O longa, no entanto, valoriza a inocência e a força das crianças, que em alguns momentos pode superar até a dos seus pais.
E ao mesmo tempo, é ótimo cinema, contando sua história de um jeito interessante e muito visual.
Filme visto na cobertura do Festival de Sundance 2026












