O curta-metragem Os Cantores, da Netflix, um dos indicados ao Oscar 2026 de Melhor Curta-Metragem, baseado em um conto de 1850 de Ivan Turguêniev, nos faz visitar um bar qualquer de um lugar qualquer uma noite fria de inverno. E lá se encontram as mais curiosas e variadas figuras, atravessadas pelas decepções da vida. Homens que já passaram da meia-idade estão em suas conversas banais que se sobrepõem umas às outras. É como se a própria narrativa estivesse embriagada assim como muitos dos personagens que são mostrados afogando suas mágoas.  

Entre piadas e conversas sérias ou tensas, um jovem homem quer afogar as mágoas de uma forma um pouco mais comovente e interessante do que através da bebida. Não à toa, sendo aquele que provavelmente mais sofreu naqueles dias em diferentes searas de sua vida, é também aquele que mais precisa cantar. A expressão “quem canta seus males espanta” é muito bem representada aqui. O problema é que, seja lá o que aquele bar foi um dia, certamente ele não está em seus melhores momentos. O homem que costumava cantar ali para entreter os convidados agora encontra-se velho e sem muito entusiasmo. Mas essa noite não será a mesma. 

É aí que “Os Cantores” evidencia sua potência sentimental, restaurando a música com uma aposta em dinheiro para aquele que for o melhor cantor da noite. Entre o velho intérprete abatido que redescobre a beleza de entreter seus colegas e o nada modesto novo homem que veio para cantar e entreter com louvor todo mundo, cada homem ali deixa algo com o espectador e nos convida a um momento único de compartilhamento de emoções. Seja o jovem excelente cantor tímido, do tipo que só canta quando está sozinho e priva os outros da beleza de sua voz; seja o desinibido senhor que não canta nada e manda ver; seja o próprio bartender em seu pranto musical que cativa a todos os demais. 

A fotografia, feito pelo próprio diretor Sam A. Davis, captura seus personagens com fortes sombras e luzes duras, marcando seus rostos em constantes closes, enfatizando o intimismo da obra, e deixando a energia da musicalidade ecoar em meio à melancolia presente. As ironias e surpresas de cada personagem trazem bom humor ao momento, assim como as letras das músicas que cantam parecem tirar de dentro de cada homem seus sentimentos mais profundos, inundando o lugar de uma sensibilidade única.  

A comovente cena final, logo quebrada com uma tirada cômica genial, nos faz transitar entre o tom confessional e o tom competitivo do momento, selando a obra como uma peça que diverte e emociona na mesma dose, com o perdão do trocadilho.