Dissecar o mundo complexo da adolescência foi um dos maiores diferenciais de John Hughes. Um dos grandes ícones da década de 1980, o diretor se consolidou ao criar histórias agradáveis e bem humoradas, abordando temas como amizade, amadurecimento e responsabilidade. Além de roteirista, ele também dirigiu grandes clássicos como Clube dos Cinco e Curtindo a Vida Adoidado, expoentes notórios do gênero Coming of Age. Hughes moldou toda uma geração com seu talento e suas obras, tornando-se uma referência aos filmes para família e da representação do espírito oitentista.

Hughes se popularizou ao abordar em seus filmes elementos intrínsecos relacionados à juventude. Foi a fase da sua vida que o transformou completamente, que antes era uma criança quieta. Além de conhecer sua esposa nesse período. Via os filmes e a música como seus refúgios pessoais já que seus pais o criticavam muito pelas suas vontades.

Nascido em 1950, Hughes ganhou notoriedade como redator ao trabalhar para a revista National Lampoon, revista americana de humor de muito sucesso da época. Era elogiado pela sua capacidade de escrever com muita rapidez. Não demorou muito para que começasse a escrever roteiros para cinema, sendo seu primeiro longa roteirizado A Reunião dos Alunos Loucos, de 1982.

Conforme ganhava reconhecimento, em 1984, dirigiu e escreveu seu primeiro longa, Gatinhas e Gatões, sucesso de bilheteria que pavimentou uma série de filmes marcantes para a década, representando a sua melhor fase da carreira. Nos anos 1990, apesar do enorme sucesso de Esqueceram de Mim, Hugues abandonou a direção de filmes após o fracasso de A Malandrinha de 1991. Após isso, apenas atuou como roteirista até os anos 2001, sendo Os Viajantes do Tempo o último filme que escreveu.

Entretanto, em uma viagem com sua família para Nova York, Hughes sofreu um ataque cardíaco e acabou falecendo aos 59 anos de idade no dia 5 de agosto de 2009. Seu legado continua ecoando na cultura pop justamente por ter feito parte de um período muito singular do cinema. Seus filmes eram aconchegantes, sensíveis e divertidos.

Pensando na magnitude de John Hughes, segue abaixo um ranking de todos os filmes que dirigiu, do pior ao melhor. Lembrando que filmes como Férias Frustradas (1983), A Garota de Rosa-Shocking (1986) e Esqueceram de Mim (1990) não foram considerados pois são filmes em que era apenas o roteirista.

8º Lugar: A Malandrinha (1991)

Infelizmente o último filme dirigido por John Hughes representa seu ponto mais baixo como diretor. Apesar de carregar elementos característicos da fórmula de Hughes, a narrativa carece de emoção e inspiração. O roteiro é bem pálido e mesmo com o esforço dos atores, principalmente da atriz mirim Alisan Porter, os laços emocionais são mais artificiais do que genuínos. O filme a todo momento busca criar e conquistar um vínculo emocional ao público, porém essas tentativas soam forçadas e sem peso dramático nenhum. Toda essa artificialidade criada é coroada pelo ato final anticlimático desesperado por lágrimas, mas que só gera um sentimentalismo vazio. Por incrível que pareça, a obra parece mais uma imitação mal sucedida dos próprios filmes do Hughes.

7º Lugar:  Ela vai ter um bebê (1988)

Em uma abordagem mais madura, John Hugues mergulha dentro dos dilemas e responsabilidades da vida adulta. O roteiro aproveita a temática para inserir temas bem interessantes relacionados ao universo dos adultos como a vida pós-casamento, crise existencial, paternidade, problemas conjugais, pressões externas, infidelidade e triângulo amoroso. O problema é que o filme quer abraçar tantos temas que a paternidade, o “tema central” do filme, se perde dentro da narrativa, sendo resgatado apenas na conclusão do filme. Apesar disso, Hughes coloca ideias bem criativas envolvendo as reações emocionais e pensamentos do personagem principal. A quebra da quarta parede funciona bem como um elemento que dá humanidade e personalidade ao protagonista de Kevin Bacon, recurso que Hugues já havia utilizado antes em sua filmografia. Hughes peca não pelas suas boas intenções, mas na forma de executá-las de forma coesa.

6º Lugar: Mulher Nota Mil (1985)

Representando o lado mais imaturo e nerd de John Hughes, a obra tem como foco os nerds dos anos oitenta, com seus anseios e conflitos. A premissa exala uma criatividade ímpar, dialogando muito com a excentricidade daquela época. Utilizar a personagem Lisa como uma metáfora da puberdade foi uma boa sacada do roteiro, em que os jovens aprendem e amadurecem através da convivência com ela. A dupla de protagonistas tem uma boa química, em que um nerd é mais introspectivo e outro mais metido. Entretanto, o maior tropeço da narrativa é seu roteiro confuso e humor irregular. O nonsense é usado para mascarar as deficiências do roteiro e o humor fica repetitivo em certo momento da história. As regras daquele universo são mal explicadas e muitas vezes deixa a impressão de esquetes de humor isoladas. Pelo menos, o final tem um bom peso dramático, encerrando bem a jornada de amadurecimento. Longe de ser perfeito, Mulher Nota Mil ratifica a essência singular dos anos oitenta.

5º Lugar: Quem vê cara não vê Coração (1989)

John Candy se tornou um grande parceiro de John Hughes em sua carreira. No projeto em questão, Hughes escreve uma história relativamente simples, convencional e protocolar. O foco é nas relações familiares, especialmente na interação de tios com seus sobrinhos. Jogando no seguro a todo momento, Hughes até constrói uma trama atrativa, porém falta criatividade e um desenvolvimento melhor dos conflitos entre os personagens. A relação do tio com os outros sobrinhos, seu irmão e cunhada não recebem atenção pelo roteiro, impedindo que boas oportunidades de desenvolvimento acontecessem. O coração do filme reside na figura de John Candy, que faz o filme funcionar pelo seu timing cômico e da forma como equilibra o drama e a comédia do personagem. A sua performance rendeu momentos hilários na trama e seu arco narrativo é bem redondinho. Mesmo sendo mais do mesmo, Quem vê cara não vê Coração tem sua qualidade elevada graças ao carisma e presença magnética de John Candy.

4º Lugar: Gatinhas e Gatões (1984)

Primeiro longa dirigido por John Hughes na sua carreira, Gatinhas e Gatões é o protótipo do que viria a se tornar sua marca registrada: a exploração do universo dos jovens. É um retrato muito fidedigno e sincero da juventude da década de 80. Hugues aprofunda muito bem os dilemas dos jovens assim como trabalha muito bem a dinâmica e os diálogos entre eles. Existe um charme cafona e bobo que rodeiam a narrativa e a trilha sonora ajuda a construir uma atmosfera nostálgica e de jovialidade. A protagonista interpretada por Molly Ringwald comunica muito bem as inseguranças da sua personagem bem como dá personalidade à Samantha. Outro ponto interessante no filme é Hughes dar um protagonismo feminino ao longa. O roteiro é recheado de piadas de duplo sentido e gags visuais que deixam o filme muito engraçado e irreverente. Entretanto, como um produto dos anos 80, existem piadas e situações bem datadas como o personagem chinês estereotipado Long Duk Dong. O drama também não é bem articulado, não combinando muito com a jocosidade da narrativa. É uma obra muito honesta em sua proposta, retratando bem as vivências do ensino médio.

3º Lugar: Curtindo a Vida Adoidado (1986)

Novos Clássicos: Curtindo a Vida Adoidado, de John Hughes

Em um dos filmes mais emblemáticos da sua carreira, John Hughes aborda a rebeldia na adolescência. A figura de Ferris é a representação do espírito subversivo e contestador do jovem da época. O recurso da quebra da quarta parede e a história ser contada pela perspectiva do protagonista dá um toque carismático ao longa, pois nos aproxima de Ferris, adentrando na sua personalidade egocêntrica com pitadas vilanescas. Os amigos de Ferris servem como um balanço para sua arrogância e o diretor funciona como um antagonista que simboliza o sistema. O roteiro brinca com as variedades situacionais de Ferris quase sendo pego, o que rende cenas extremamente engraçadas e criativas. Além disso, a montagem dá um dinamismo impecável para o filme, deixando a aventura envolvente de acompanhar. Hughes dirige cenas memoráveis e as músicas casam perfeitamente com o tom arrojado da obra. O grande trunfo do filme é o seu espírito travesso e sua ideia de viver intensamente cada momento, do sentimento de liberdade e se divertir no processo.  

2º Lugar: Clube dos Cinco (1985)

Depois da recepção positiva de Gatinhas e Gatões, Hughes aprimora a fórmula já estabelecida em Clube dos Cinco. É a síntese da complexidade do universo do jovem. Ele consegue equilibrar magnificamente a simplicidade da narrativa com um desenvolvimento dramático profundo. Cada personagem representa um arquétipo que vai sendo contestado e desconstruído ao longo da narrativa, mostrando a humanidade mutável deles. Hughes aproveita para abordar temas delicados como tentativa de suicídio, ambiente familiar tóxico, amizade, a hipocrisia da sociedade e o amadurecimento. Em apenas um único cenário, Hughes cria um ambiente de tensão entre os personagens, onde as interações entre eles soam desconfortáveis e dinâmicas. A carga dramática aumenta conforme eles vão ficando mais próximos e o texto fica mais orgânico e natural. Ele ainda consegue dar bons respiros no drama, inserindo um humor envolvente. Apesar de tudo isso, o filme tem suas falhas como a tentativa de emplacar um romance forçado e algumas decisões criativas que envelheceram bem mal no contexto atual. Ainda assim, ele é a obra absoluta de Hughes sobre essa fase.

1º Lugar: Antes só do que Mal Acompanhado (1987)

Após grandes filmes envolvendo a juventude, John Hughes decide apostar em algo diferente, trazendo uma relação de amizade improvável entre duas pessoas completamente diferentes. O humor reside na forma inteligente como Hughes coloca a dupla de protagonistas em situações vexatórias e como os atores reagem e lidam com essas adversidades. A excelente química de Steve Martin e John Candy conquista pela sinceridade e pelo timing cômico afiado deles em cena. Mesmo sendo uma comédia assumida, existe um drama sutil nos personagens e a evolução de seus arcos narrativos são bem amarrados na história. É um filme sobre empatia, compaixão, altruísmo, resiliência, respeito mútuo e o mais importante, um exercício de humanidade. Por mais que a trama seja simples, Hughes compensa com uma condução leve, divertida, cheia de coração e gentileza, carregando um significado muito profundo e universal. Um longa atemporal e necessário em tempos incertos em que o ser humano se rendeu ao individualismo. Representa o amadurecimento de Hughes em sua carreira e uma comédia icônica da história do cinema.