PARA LER OUVINDO:

Em certo momento do filme “O Ódio” (La Haine, 1995), aparece um imenso outdoor em letras garrafais: “o mundo é seu”. Bem, será mesmo? Sob quais circunstâncias pode-se afirmar isso? E quem é que pode afirmar essa questão?

São inquietações de um, então, jovem francês de 28 anos, Mathieu Kassovitz, na sua estreia na direção nesse longa francês que ao longo das décadas vem sendo cada vez mais cultuado e demonstrando a sua atemporalidade, no que tange a marginalização do subúrbio e dos seus habitantes, frente ao sistema e as forças opressivas legalizadas como a polícia.

Ao longo de 24 horas, acompanhamos um dia nada amistoso para os três amigos, Vinz (Vincent Cassel, antes de se tornar um ícone do cinema francês e brasileiro honorário nas horas vagas), Hubert (Hubert Koundé) e Said (Said Taghmaoui). Um judeu, um negro e um árabe, respectivamente. Eles vivem em uma periferia parisiense e transformam esse gueto em seus universos particulares. Ainda assombrados com a violência policial que deixou um dos seus amigos em estado crítico no hospital, buscam formas de sobreviver sob a ameaça truculenta do Estado.

Mesmo representado o que aqui no Brasil reconhecemos como “nem nem” (bebem, usam drogas, não estudam, não tem trabalho, ou vivem de pequenos bicos e delitos), esses jovens sabem que o mundo não é seu por livre e espontânea vontade e merecimento quando os domínios estatais demarcam territórios, em um apartheid social. Onde os mais privilegiados vivem em seus muros confortavelmente e os menos abastados vivem à margem e sempre à espreita de uma nova truculenta invasão policial, reforçados pelo o poder midiático igualmente liberal. E como não sentir ódio e repulsa, crescendo sabendo das desigualdades alarmantes e legalizadas?

Sentiram alguma semelhança com as favelas e as periferias do Brasil? 

Há urgência, raiva, violência e indignação na obra de Kassovitz. Os diálogos são rápidos e nervosos, por conta dessa histeria que invade a vida desses três rapazes desde sempre. Thomas Hobbes já alertava que “o homem é o lobo do homem”, a fotografia preto e branco tenciona ainda mais o desejo de sangue desse(s) lobo(s) em um verdadeiro genocídio à juventude que, mesmo com pouca instrução, tem a consciência da barbaridade seletiva, pois eles não pertencem a Paris do romance e das artes que é vendida para o mundo.

Em um outro momento Said picha aquele mesmo outdoor, mudando uma letra para a outra. Agora está escrito “o mundo é nosso”. Em meio toda a tensão policial e social, a compreensão do lugar em que se está inserido pressupõe outra perspectiva. A subversão, a anarquia e a rebeldia é justamente por viver e não sucumbir às ações extremas que envolvem o viver em uma sociedade corrompida, falida e sistematicamente preconceituosa. Não à toca, Kassovitz coloca um judeu, um negro e um árabe no centro do protagonismo em um filme francês que fala dos abusos e sofridos por essa população. “O Ódio” é um filme regular, mas tem o seu impacto que diz muito da sociedade de 1990 e mais ainda de 2026.