Os elementos estão todos lá: o mistério envolvendo um passado sombrio, o clima de conspiração, o protagonista turrão que se mete em um lugar onde ninguém o quer. São elementos clássicos, testados, confiáveis. Uma boa adaptação precisaria apenas injetar uma personalidade própria à trama.

Mas o diretor Aly Muritiba, da primeira temporada de “Cangaço Novo”, parece incapaz de dar cabo da incumbência. Ele mira claramente em “Millennium — Os Homens que Não Amavam as Mulheres” —- há inclusive uma cena reminiscente daquele tiro que quase acerta Daniel Craig no filme de Fincher, fora os elementos gerais da trama. O cineasta baiano não tem o sadismo brejeiro nem a precisão técnica do diretor de “Clube da Luta”.

Sendo assim, Barba Ensopada de Sangue, baseado no livro homônimo de Daniel Galera, resulta sem muita identidade. Sugere uma trama cheia de violência, mas nunca é realmente violento; propõe um mergulho em um passado sombrio, mas quando os ossos são finalmente desenterrados, nossa primeira reação é um “tá, e daí?” Por que o mocinho, Gabriel (Gabriel Leone), vai até o final em suas investigações em vez de pular fora na primeira oportunidade? Só Deus e os roteiristas sabem.

Porque o que o filme tem é um senso de lugar: a cidade fictícia de Armação, em Santa Catarina —- no romance original, Garopaba. Mesmo inventada, estão ali todas as características de um lugar bem definido: o passado baleeiro, os sambaquis típicos do litoral catarinense, as festas açorianas e, muito importante, a comunidade fechada, que não gosta de forasteiros. É um lugar parado no tempo, que imediatamente recebe Gabriel com hostilidade.

Ele está ali para se livrar da velha casa de família após o suicídio do pai. Seu avô, décadas atrás, morreu no lugar sob circunstâncias misteriosas. Na cidade, era detestado por todos. Agora, parte do ódio recai sobre Gabriel. O porquê de ele querer mexer nesse vespeiro nunca é explicado muito bem, já que sua relação com a família, como o filme logo aponta, está longe de ser calorosa. Mas mexer no vespeiro é exatamente o que nosso protagonista barbado faz.

Mesmo que a cidadezinha fictícia seja pitoresca, a trama descrita acima é filmada com um olho dos mais protocolares por Muritiba e seu diretor de fotografia, Inti Briones. Pior: é um filme com uma cara modorrenta, encharcada daquele cinza digital que a gente aprendeu a engolir em tempos de streaming.

Resta a Muritiba e Briones apelar para uma velocidade super rápida do obturador, tornando todos os movimentos tremelicantes, todos os detalhes nítidos. O resultado é tão emocionante quanto uma reportagem do Canal Off sobre o litoral catarinense. Outras vezes, esse obturador rápido se une à câmera na mão durante os diálogos mais banais, como se Barba Ensopada de Sangue estivesse desesperado para sugerir alguma tensão que seja.

O que ajuda a dar o tom da abordagem irregular de Muritiba. Está claro que ele busca se mostrar um cineasta econômico, que evita as traquinações complicadas de câmera, que permite que as cenas se desenrolem em longos takes. Para isso, seria preciso ou um total controle sobre a narrativa (que, como o próprio Fincher nos mostra, pode se tornar algo sufocante), ou um certo je ne sais quoi, uma certa personalidade que sustentasse o jeitão pé-no-chão.

Muritiba não atinge esta precisão; aliás passa longe disso. Logo no início, por exemplo, temos um corte totalmente desengonçado em uma cena de diálogo, quando um eletricista na casa de Gabriel é perguntado sobre o avô do rapaz. É um corte seco, sem pé nem cabeça, imediatamente após a pergunta ser feita, que nos deixa sem entender se foi um erro de continuidade, uma decisão estilística ou o quê. 

Por outro lado, quando o diretor decide soltar seus atores e acompanhar tudo com planos longos, o resultado é irregular. Quando funciona, a abordagem traz até uma textura interessante, vide a cena em que Gabriel confronta uma paixão do passado. Mas quando o tiro sai pela culatra, como na cena de abertura, o resultado parece um trabalho quase universitário de direção de atores ou, no máximo, uma demo reel, um vídeo de demonstração. Em ambos os casos, o texto chinfrim, que sugere uma estilização pulp que nunca é alcançada, não ajuda ninguém.

Certamente não ajuda Gabriel Leone, que não tem muito o que fazer na pele de seu xará. Com a barba longa e espessa, o cenho franzido, ele perambula por Armação sem que nunca possamos entender suas motivações naquele lugar, especialmente quando a vaca começa a ir pro brejo. Uma pena, porque Leone não é mau ator e tem uma cara ótima: sobrancelhas escuríssimas, arqueadas sobre um nariz helênico, assertivo com uma flecha. É toda uma pinta de durão traída pelos lábios grossos, que denotam um quê romântico, trazendo algo de sentimental ao conjunto.

Um rosto que merecia ser tratado com um pouco mais de carinho. O que falta ao longa é justamente esse tempero que torna o rosto de Leone interessante de olhar, uma pimenta que tire o filme do ponto morto. Barba Ensopada de Sangue é um filme que parece perfeitamente satisfeito em simplesmente deixar as engrenagens girarem, mas se esquece que um pouquinho de personalidade sempre cai bem.