Dirigido por Pauline Locquès e estrelado por Théodore Pellerin, o drama francês “Nino de Sexta a Segunda” retrata a vida de um jovem de 29 anos que inesperadamente descobre que tem câncer na garganta durante um exame de rotina numa sexta-feira. Tranquilamente atendido por uma simpática médica, ele precisa começar o tratamento já na segunda-feira. O filme se passa durante esses quatro dias – daí o título brasileiro do filme – mostrando o final de semana de Nino frente a essa nova descoberta.
Marcado por idas e vindas, reflexões e interações sociais variadas, Nino tenta viver seus dias naturalmente e processar toda essa informação, enquanto se redescobre em conversas com sua mãe, amigos presentes e velhos conhecidos que reaparecem. Suas experiências proporcionam uma experiência intimista singular ao espectador, que se enxerga no deslocamento de Nino e vivencia seus temores e anseios juntamente com ele. Afinal, o que cada um de nós faria se estivéssemos em seu lugar?
Com muita sensibilidade, a lente de Pauline Locquès quase não se desprende de seu protagonista, acompanhando-o em belos planos americanos que também ressaltam a ambientação movimentada e indiferente das ruas pelas quais passa.
Nino é vivido com bastante introspecção numa interpretação bastante contida de Théodore Pellerin, captado em muitos closes que revelam as sutilezas de suas expressões. O olhar, por vezes, perdido e o semblante tenso marcam a delicadeza do momento vivido pelo jovem, sem saber como reagir às situações. É curioso perceber para quem ele se sente mais confortável em contar sobre sua doença e para quem não.
A opção por situar a história bem no final de semana do aniversário de Nino acentua o deslocamento da situação e fazem de seu amigo Sofian, vivido por William Lebghil, uma figura interessante e importante em sua trajetória. Não menos tocante é a aleatória e bem-vinda presença de Zoe, vivida por Salomé Dewaels, que surge como uma inesperada amizade especial que poderia muito bem se tornar algo mais, não fosse pela condição de Nino, cujo câncer evoluiu de uma infecção sexualmente transmissível.
A possibilidade de Nino ser um possível futuro amante de Zoe e um pai para seu filho é apenas algo que fica na mente do espectador, se é que eles voltarão a interagir novamente com a mesma profundidade. Assim é a vida, cheia de encontros e desencontros. E quando não se tem certeza sobre o quanto ainda resta da vida, os encontros podem se tornar ainda mais significativos… e os desencontros também.
“Nino de Sexta a Segunda” é um filme para se sentir, refletir e nos permitirmos por um breve momento ver a vida através do olhar de um indivíduo que poderia ser qualquer um de nós. Talvez não por acaso saibamos tão pouco sobre seus gostos pessoais e seu cotidiano em seu apartamento, já que habilmente o roteiro escolhe deixá-lo de fora dele, ao fazê-lo perder a chave do mesmo e ainda por cima ter que lidar com a morte do porteiro a seguir. É um convite à aventura de sair de uma zona de conforto existencial, na busca por um sentido que sequer nós sabemos exatamente o que é.
Nem por isso, menos belas são as memórias, as pessoas e as atividades que nos atravessam. Aprendendo ou não algo com alguma coisa, viver é sentir e se sentir bem. Ao final, Nino começa uma nova fase ingrata de sua existência, mas deixa a nós sua presença e a energia de empatia que o poder da arte deposita em todos nós.












