Por muitas vezes esquecemos que um artista é um ser humano como qualquer outro. O glamour da fama e da idolatria colocam famosos em um patamar elevado, muitas vezes como deuses intocáveis. Contudo, eles também têm suas batalhas internas, defeitos e virtudes. A saúde mental de um artista é tópico sensível, pouco debatido e que merece os devidos holofotes. Nesse contexto, Consequência, produção da Apple Tv, é repleto de ideias boas que são sufocadas por uma comédia deslocada e forçada, diminuindo a força da sua abordagem.

Em um momento de recuperação de imagem, a vida do ator renomado Reef Hawk, interpretado por Keanu Reeves, muda completamente quando surge uma chantagem de divulgação de um vídeo impróprio. A partir disso, ele inicia uma busca ao seu passado e revisita pessoas para se desculpar e lidar com seus demônios internos. O personagem serve como uma analogia ao artista de Hollywood, mergulhando dentro dessa estrutura. Neste sentido, Consequência lembra um pouco Jay Kelly, de Noah Baumbach, na forma de trazer um astro vulnerável em um processo de nostalgia.

O dilema que o personagem de Reeves enfrenta é um passeio reflexivo ao passado, em um conflito sobre quem ele realmente é e o que aparenta ser. Do sucesso desde criança até a fama subir a cabeça passando pelos vícios, as abordagens dos fãs e a relação com seus amigos: Consequência trabalha os mais diversos aspectos da vida pública.

Essa construção dá uma leve ajuda ao roteiro, que não tem coragem de ser mais ácido em suas provocações. Todas as cutucadas são em forma de piadas ou referências tímidas, como por exemplo um quadro de uma personalidade cancelada em uma parede. Temas como o vitimismo como ferramenta de engajamento e o funcionamento de gerenciamento de crises viram piadas preguiçosas e monólogos autoexplicativos.

Não obstante, a artificialidade aparece para evidenciar a metáfora das aparências, seja pela fotografia excessivamente limpa e colorida como nas piadas de cunho satíricas. Quando o protagonista vai até figuras do seu passado, desde seu ex-agente ou sua mãe, os diálogos inspirados se perdem em um tom cômico desnecessário, que comprime a força das situações e quebra a dramaticidade.

Isso evidencia a falha da condução e controle de Jonah Hill como diretor. Todo o potencial do longa se perde a um humor medíocre que se acha convenientemente contundente. O ato final é totalmente comprometido por essa artificialidade excessiva e mecânica, a ponto de não se importar mais com aqueles personagens e o desfecho da narrativa.

A inserção do personagem de Jonah Hill como Ira Slitz, advogado de Reef, ressalta o problema de tom da narrativa. Ele puxa o filme para o caricato, com uma atuação forçada e cheia de piadas exageradas. Parece que o personagem só serve para alimentar a vaidade do ator em ter seu momento de brilhar. Hill sente a necessidade de forçar o riso a todo custo. Enquanto ele arrasta a comédia forçada, Keanu se esforça para trazer o drama. Os dois brigam pelo tom, se tornando duas forças antagônicas em rumos opostos.

A indecisão de qual tom abraçar torna Consequência uma narrativa irregular, ausente de graça e sem profundidade. A atuação de Keanu Reeves traz o mínimo de atenção aos temas propostos, que numa conjuntura atual se mostram muito necessários. Porém, seu trabalho e a ótima premissa são desperdiçadas por um exercício do ego pseudo-engraçado equivocado de Jonah Hill.