“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se afastou numa representação”.

Guy Debord em sua obra máxima A Sociedade do Espetáculo (1967) teorizava sobre a espetacularização do ser social em uma sociedade moderna, capitalista e marcada por avanços tecnológicos. Consumo e cultura tornam-se muito mais do que ser, mas ter. Trazendo uma falsa percepção de uma realidade. Mas o que é a realidade quando o capital, os meios de comunicação e os podres poderes produzem alienação e prisão?

Estas e outras questões estão no centro do roteiro assinado por Paddy Chayefsky com uma direção precisa e nada comedida por um inspiradíssimo Sidney Lumet em Rede de Intrigas. O longa é um trabalho verbalizado pelas questões políticas que estavam em voga naquele momento da década de 1970 para os EUA, como a Guerra do Vietnã e a decadência do american dream, ou seja, coisas proféticas que se concretizaram ao longo dos anos.

Ao completar 50 anos de lançamento em 2026, fiquei me perguntando se, ainda hoje, valeria tudo pela audiência. E a resposta é sim. E não falo apenas dos principais cânones midiáticos: televisão e jornal. Mas, principalmente, das redes sociais e de como certos perfis com grande número de seguidores trabalham em dever desse espetáculo e manipulação, aliado ao discurso essencialmente neoliberal, capitalista e excludente. Falando apenas de Brasil…

Este pensamento de uma sociedade adoecida em prol da audiência, em linhas gerais, também aparece em Sobre a Televisão (1997) de Pierre Bourdieu, que analisa a tirania pelo ibope e como a seriedade do jornalismo se compromete através dele mesmo, pois a veracidade das informações é polarizada pelo sensacionalismo.

E isso está explicitamente estampado na personagem de Faye Dunaway como a implacável Diana Christensen nesse jogo de poder. Ela representa o lado patológico desse sistema caótico que se sofisticou ao longo dos anos e chega nos tempos atuais mais solidificados e em plenos vigores.

Em contraponto, há Howard Beale (Peter Finch), o ancora do principal telejornal de uma emissora que, na meia idade, é demitido e ameaça suicídio em pleno horário nobre. Atiçando a curiosidade mórbida de todos e elevando a sua popularidade. Nesse interim, ele chama o público a esbravejar “estou furioso e não vou mais aguentar isso!”, dentro de sua loucura/indignação pelo sistema. Mas, vejamos, estamos inseridos nesse sistema. E partimos, então, para um outro ponto interessante: um falso Messias, um salvador, alguém que tenha “a cara e a voz do povo” que, em horário nobre fale o que queremos e necessitamos ouvir. Esse é um lado vil do ser humano que precisa encontrar no outro alguma forma de crença para justificar as suas ações (olha os tupiniquins elegendo a torto e a direito os falsos profetas em prol da família). Uma falsa convicção, pois tudo está alinhado à um bem muito especifico: ibope, liderança e poder.

“Rede de Intrigas” demonstra a notícia nível fast food, o que Bordieu denomina como fast-thinking, isto é, pensamento superficial, rápido e sem complexidade. Uma manipulação das massas, as tomadas de decisões entre homens brancos, ricos e de meia idade. Tudo são negócios, o ideal e o esvaziamento político e a dominação das notícias. O exemplo mais claro aqui no Brasil é o Grupo Globo liderado pelos Marinho. Percebam que há um pacto narcisístico em não abrir mão dessa posição (representado muito bem pelo Robert Duvall).

“O espetáculo é o discurso ininterrupto que a ordem presente faz sobre si própria, o seu monólogo elogioso. É o autorretrato do poder na época da sua gestão totalitária das condições de existência. A aparência fetichista de pura objetividade nas relações espetaculares esconde o seu carácter de relação entre homens e entre classes”.

Em termos técnicos, “Rede de Intrigas” tem uma edição sistemática e uma fotográfica colorida e brilhante, em contraponto com seu contexto. Uma espécie de maquiagem para esconder a real intenção. E não é isso que a televisão diz? A caixa mágica das ilusões. Entretanto, por conta dessas ilusões, a sociedade como um todo paga um grande preço. Peças descartáveis que quando não atendem as necessidades do consumo, são descartados e substituídos. Sejam aqueles que estão nas nossas casas diariamente discursando o básico, seja aqueles que estão do outro lado da tela. Pois, até eles são descartes.

“Rede de Intrigas”, em suma, é uma obra importante e fundamental na compreensão da nocividade legalizada, instituída e estruturada em uma sociedade violentada. Isso me lembra uma frase do personagem Frank Underwood (Kevin Spacey) na série House of Cards (2013-2018) que resume tudo: “nós não temos medo, nós criamos o medo”.

O filme foi indicado em dez categorias no Oscar de 1977, vencendo em quatro: roteiro original, atriz coadjuvante para Beatrice Straight (e os polêmicos cinco minutos de tela), melhor ator para Peter Finch (o primeiro prêmio póstumo nas categorias de atuação) e atriz para Faye Dunaway, consagrando uma das maiores estrelas da, então, Nova Hollywood.