Miley Cyrus é fã. Rachel McAdams também. Para não falar nada dos Emmys que vão se empilhando na prateleira da Netflix por Amor no Espectro, reality que estreou a quarta temporada no início de abril.

Nele, pessoas autistas tentam navegar as águas turbulentas dos encontros românticos na busca pelo amor verdadeiro. Não há competição, não há provas estapafúrdias. O grande desafio para seus participantes é fazer a leitura correta das situações sociais e controlar o nervosismo no primeiro encontro.

O lançamento da quarta temporada veio acompanhado de uma matéria especial no New York Times. Nele, o tom empático do programa é elogiado e celebrado: todos, autistas ou não, podem se identificar com o mote da série, a saber, a busca por um par que nos complete. E inclua nessa busca todas as complicações de sair em dates, os silêncios desconfortáveis, as expectativas não realizadas.

Mas também é verdade que, desde que a versão original do programa foi lançada na Austrália, no final da década passada, espectadores autistas têm demonstrado ambivalência em relação ao reality. Claro, é bom que o autismo seja mostrado, que ele possa ser visto e ouvido. O problema é: como essas imagens e sons são construídos?

No caso do autismo retratado pelo programa, o que logo chama atenção é o quão infantilizado ele é. Se você não souber nada sobre TEA, pode até mesmo terminar a série com a impressão de que o transtorno se dá simplesmente pela prevalência de interesses infantis. Os participantes possuem hiperfoco em bonecas, desenhos do Bob Esponja, espadas medievais e RPG. Sublinhando tudo isso, há uma hedionda trilha sonora engraçadinha, saída diretamente de um filme da Xuxa ou coisa que o valha.

Para piorar essa infantilização, há no programa a prevalência de um autismo conservador, recatado. Emma, uma das novas participantes da temporada, é mórmon e não quer saber de sexo antes do casamento. Madison e Tyler, casal formado na temporada passada, também escolheram esperar. Connor, um favorito dos fãs, todo maneirismos de lord inglês, tem uma relação pudica com o sexo. E Logan, novo participante e, atualmente, único autista negro do reality, declara detestar séries de TV onde as pessoas se beijam e falam palavrão.

É como se nenhum autista pensasse em transar. Dani, participante de temporadas passadas, era a única que parecia buscar não só um “amor verdadeiro”, mas um amor verdadeiro que também gostasse de foder. É verdade que, condizente com os ditames do programa, seu desejo era exposto de uma forma que podia ser lida facilmente como fofinha, engraçada: por meio de sua obsessão por desenhos animados. Ainda assim, ela era a heroína da resistência, agora jogada para escanteio na quarta temporada.

E com o casal Pari e Tina, duas mulheres bissexuais, de fora da temporada (à exceção de uma breve participação no episódio 7), todos os participantes restantes são heterossexuais. Estamos falando, portanto, de um autismo crente, pudico e absolutamente heteronormativo. É claro que seria impossível abranger todas as variações sexuais e românticas dentro do espectro, mas há de se questionar o porquê desse recorte.

Para um programa que alega abraçar a diferença, Amor no Espectro é de uma homogeneidade terrível. Como o ritmo do reality permanece sempre o mesmo — interações constrangedoras, primeiros beijos, desilusões em potencial — esse marasmo se faz sentir ainda mais. Mas também seria desonesto afirmar que a série é um fracasso completo. Afinal, a inexperiência dos participantes traz à tona uma torrente de memórias dos momentos de descoberta que todos enfrentamos em nossas desventuras românticas.

Mais ainda: por desconhecerem as regras dos encontros, nossas estrelas autistas demonstram toda a artificialidade das convenções sociais que, sabe-se lá o porquê, insistimos em seguir. Nesse sentido, Amor no Espectro seria um programa muito especial se privilegiasse por completo tais aspectos da não-normatividade.

Mas não: logo aparece a “especialista em autismo” Jennifer Cook para ensinar os comportamentos adequados para nossos acólitos do amor. O fato de ela ser simpaticíssima e também autista não muda o fato de que estamos testemunhando uma forma de adestramento — light, mas adestramento mesmo assim. O que, aliada à representação torta que o programa constrói de seus participantes, não pega bem.

O incômodo se intensifica sempre que vemos os pais dos participantes usando discursos de superação ao descrever os filhos. Tacitamente, celebra-se a ideia de que os filhos agora fazem coisas de “gente normal”. Por que, em vez de celebrar a normatização, não fomentamos a expressão singular de novas formas de vida?

Ora, há mesmo momentos em que Amor no Espectro ensaia se deixar contaminar pelo espírito disruptivo de seus participantes, como quando James, veterano da primeira temporada, toma a dianteira do diretor Cian O’Clery e dita o que a equipe deveria filmar. Ou quando o mesmo diretor tem seu nome reiteradamente trocado para “Sean” por Logan, em uma série de deslizes benignos.

Mas logo entra a trilha engraçadinha, e qualquer ameaça de disrupção é neutralizada. Amor no Espectro apresenta um autismo dócil e inofensivo, esquisitinho o bastante para separar os autistas dos “normais”, mas sem alienar o espectador casual. Nada, nem mesmo o mais fofo e açucarado dos casais, consegue apagar esse gosto amargo. Mas é verdade que alguns dos casais são de fato bem fofos…