Em 2017, surgia no YouTube o “Sociedade da Virtude”, um canal de animações de humor que satirizava o universo de super-heróis. A maior surpresa é o fato da produção ser uma iniciativa brasileira, criada por Ian SBF (diretor e roteirista, criador do “Porta dos Fundos”) e Thobias Daneluz (ilustrador).

Inicialmente pensado para o consumo estadunidense – dada a natureza do conteúdo em questão – com trabalhos de voz original em inglês, o “Society of Virtue” ganhou imediatamente a versão brasileira do canal, com os vídeos dublados em português. Não qualquer dublagem, mas com a participação de alguns dos melhores dubladores do país, como Guilherme Briggs, Maíra Góes, Maurício Berger, Marcelo Garcia, Duda Ribeiro, entre outros, escolhidos a dedo por Ian e Thobias, grandes fãs dos dubladores nacionais. Isso deu ao projeto grande credibilidade, com uma qualidade de dublagem única para um canal do YouTube.

Representando banalidades e expondo as convenções de gênero das histórias de super- heróis, com diálogos afiados e personagens carismáticos, o Sociedade da Virtude sempre se mostrou “o irmão nerd do Porta dos Fundos”. Foi questão de tempo até o projeto tomar uma proporção maior e se tornar uma série, apadrinhada pela HBO Max e pelo Adult Swim (o projeto sempre foi a cara do canal). Um detalhe é que agora as vozes originais são as brasileiras mesmo, com o mesmo elenco de sempre. O resultado foi algo bem satisfatório, na medida do que se poderia esperar de uma grande história contínua envolvendo os personagens.

Obviamente, pelo seu caráter de esquete, os vídeos do canal tinham em torno de 3 minutos. Então a duração dos episódios da série poderia tornar o projeto mais arriscado se fossem muito longos. A média de 15 minutos se revelou uma boa ideia para preservar o tom simples dos enredos.

A arte visual de Thobias Daneluz continua extremamente atraente, com o mesmo estilo e padrão dos vídeos do canal. A animação continua limitada o suficiente para o que o estilo narrativo propõe, nunca chegando a parecer engessada. Grande parte do que nos deixa interessados nos personagens, além de sua personalidade, são os traços do artista, que fazem um bom equilíbrio entre o cartunesco e o realista, inspirado na arte de Bruce Timm (ilustrador e criador de Batman – A Série Animada e de todo universo das animações da DC). A paleta de cores também consegue fazer de cada cenário um vislumbre, feitos com o mesmo grau de detalhe que os personagens, a despeito de seu humor mais galgado em diálogos.

A escolha por começar a narrativa com uma missão envolvendo apenas a Pantera Ruiva – agente secreta trans – e depois ir introduzindo os outros personagens da equipe para se auxiliarem, ao final de cada episódio, geram bons cliffhangers que mantém o espectador louco para maratonar.

Os temas e as críticas continuam ali, com especial foco no capitalismo e na tecnologia, com comentários ácidos e mórbidos sobre o estilo de vida dos grandes bilionários e seu modo de gerenciar sua fortuna, passando por temas espinhosos, como tráfico humano e abuso sexual. O próprio vilão é um magnata da tecnologia interpretado por Antonio Tabet.

Os conflitos geracionais e a consciência social também se fazem presentes, acentuadas pela questão da viagem no tempo presente na segunda metade da história, e também o que envolve, por exemplo, a ideia de outras encarnações da Majestosa.

Ademais, a própria relação dos personagens entre si, as situações constrangedoras e a desconstrução conceitual presente na paródia de algumas figuras conhecidas das narrativas de super-heróis, bem como as incoerências e lacunas temáticas das chamadas grandes sagas editoriais, tornam a experiência hilária. Nesse sentido, a autoconsciência metalinguística, principalmente no episódio final, cede ao puro suco de alfinetada na grande Marvel Studios e sua recente fase irregular nos cinemas, nunca deixando esquecer o quanto a série não se leva a sério.

Se na crítica anterior, apontei como o Brasil foi “super” mal representado pelos gringos, aqui nesta é um orgulho notar o quanto o Brasil conhece do cinema mainstream estadunidense, dos quadrinhos e da cultura pop, fazendo uma sátira de qualidade que rivalizaria com um “MAD” ou um “Frango-Robô” da vida.