De estrela da famosa sitcom Laverne & Shirley a diretora de cinema, Penny Marshall se tornou uma das vozes ressonantes na indústria cinematográfica em um cargo majoritariamente dominado por homens. Diretora de clássicos como Quero ser Grande e Uma Equipe Muito Especial, a novaiorquina gostava de trabalhar temáticas como empoderamento feminino e amadurecimento em suas obras.
Na curta filmografia, ela sempre se preocupava em abordar elementos relacionados ao universo feminino, como dificuldades, dilemas, conflitos e desconstrução de paradigmas. Por mais que sua trajetória oscile entre altos e baixos, Penny foi um nome importante como uma referência para mulheres cineastas. Pouco comentada pela cinefilia, criou obras que sobreviveram ao teste do tempo com narrativas inspiradoras e com visibilidade às mulheres.
Pensando nisso, o Cine Set preparou um ranking de todos os filmes que dirigiu, do pior ao melhor.
7. Um Novo Homem (1994)
Depois de emplacar três grandes filmes, Penny entregou o ponto mais baixo da sua filmografia com o insípido Um Novo Homem. Embora com uma temática relevante em mãos como a importância da alfabetização através da literatura, a dramédia sofre para encontrar seu tom, falhando nas tentativas de abraçar vários tons e fazê-los dar certo dentro da narrativa. Quando vai para a comédia, ela soa deslocada e o drama não tem peso emocional algum. Tudo na narrativa transmite uma artificialidade, seja na direção da Penny, os coadjuvantes e até Danny DeVito, que atua totalmente no piloto automático. Há um esforço enorme para alcançar a essência de Sociedade dos Poetas Mortos, porém, na realidade, ele é apenas uma versão genérica e insossa do mesmo.
6. Salve-me Quem Puder (1986)
O longa de estreia de Penny na direção foi o primeiro de Whoopi Goldberg nos cinemas após o sucesso em A Cor Púrpura. Utilizando aquela velha e básica trama de espionagem, Penny procura subverter o gênero ao trazer uma protagonista negra. Com isso, ela provoca alguns levantamentos sutis sobre o machismo dentro da temática. Existem boas sacadas, mas o roteiro em sua estrutura, não oferece nada mais além de uma trama previsível e repetitiva. Os personagens coadjuvantes são peças descartáveis, engolidas pela protagonista. Falando dela, o talento de Whoopi é a energia vital da produção; ela comanda a história com seu carisma, mesmo apelando desnecessariamente para o caricatural exagerado em alguns momentos. Para disfarçar a inexperiência na direção, Penny se apoia totalmente na atriz. No fim das contas, ela fez certo, pois Whoopi é quem salva bastante a diversão do filme.
5. Um Anjo em minha Vida (1996)
Com a intenção de resgatar aquelas narrativas inspiradoras estilo A Felicidade não se Compra, a refilmagem do longa Um Anjo Caiu do Céu, de 1947, proposta por Penny, acerta ao manter o charme do original. Entretanto, essa nova versão segue à risca a cartilha dos filmes gospel em que só a mensagem do filme já é o suficiente. Valiosas oportunidades de atualizar o contexto da época são perdidas. A impressão que fica é que a história está presa em seu tempo. A presença de Denzel Washington dá um frescor e uma leveza para a trama com sua ingenuidade é encantadora, entregando bons momentos no longa. Contudo, há uma falta de aprofundamento da personagem de Whitney Houston, que ganha destaque apenas nas cenas de canção. A atuação da popstar, infelizmente, é apagada, só crescendo quando contracena com Denzel. A relação com o marido fica em segundo plano, perdendo espaço dentro do filme. Penny conduz bem a obra, mas derrapa em um ritmo arrastado, que incha a narrativa. Assistir ao filme é como acompanhar aquelas sessões de filmes que passam à tarde: entretém para o momento e depois acaba esquecido.
4. Os Garotos da Minha Vida (2001)
Último filme dirigido por Penny, o longa traz um encerramento agridoce na sua carreira. Por um lado, o filme lida com temas pertinentes como o amadurecimento precoce associado à gravidez na adolescência e drogas. O longa aposta em uma narrativa que alterna entre passado e futuro, refletindo a perspectiva geracional de Bev e seu filho. Com pitadas de melodrama, Penny aborda as dificuldades socioeconômicas de uma mãe jovem, seus sacrifícios e responsabilidades. É um cenário tão comum de se encontrar na vida real que Os Garotos da Minha Vida ganha mais aproximação com o público. Drew Barrymore e Steve Zahn convencem bem como um casal adolescente disfuncional, embora ela não aproveite totalmente as nuances da personagem. Os dois são obrigados a assumir funções que não estão preparados e o filme desenvolve bem cada etapa disso. Entretanto, a adaptação de Penny parece um tanto quanto comportada em relação ao livro ao qual é inspirado, com momentos de Bev suavizados ou completamente esquecidos. Em suma, seu último projeto é uma considerável melhoria aos anteriores, embora ainda longe da melhor fase.
3. Tempo de Despertar (1990)
Único filme de Penny indicado ao Oscar de Melhor Filme, Tempo de Despertar é um drama convencional de primeira linha, impulsionado pelas excelentes performances de Robert De Niro e Robin Williams. Baseado em uma história real, o longa mergulha em um universo pouco mostrado, a difícil realidade dos pacientes em estados catatônicos. O roteiro aborda os desafios tanto de quem sofre como de quem luta para cuidar, em um caminho de resiliência e humanidade. Penny demonstra uma direção confiante, buscando respiros na narrativa com cenas agradáveis e acolhedoras. De Niro impressiona com a sua entrega física e alegria ao poder aprender e realizar tarefas simples bem como uma felicidade no olhar de descobrir o mundo que vai regredindo conforme seu sofrimento retorna. Williams carrega um otimismo e força de vontade, que aos poucos dão lugar a incertezas e preocupações. Ademais, Penny não tem medo de trazer uma conclusão realista e dura, que surpreendentemente preserva um ar esperançoso. Um filme que ensina a agradecer pelo simples privilégio de exercer funções básicas do cotidiano e refletir sobre a humanidade aprisionada de pessoas que vivem sem poder exercê-la.
2. Uma Equipe Muito Especial (1992)
Clássico dos filmes esportivos, Uma Equipe Muito Especial é muito além de um filme divertido, mas um registro histórico sobre o esporte feminino. Uma trama que lida com luta e superação, empoderamento e autonomia das mulheres. Penny dirige com muita sabedoria, retratando personagens quebrados, repletos de dilemas verdadeiros. A dualidade da relação das irmãs Dottie e Kit fortalece o arco das personagens e funciona como o fio condutor da tensão da história assim como o técnico rabugento Jimmy, interpretado por Tom Hanks. Aqui, o astro quebra aquela imagem de bom moço com um arco gradual de crescimento. As cenas de beisebol têm energia e emoção, mérito da direção. O roteiro dosa com primor a comédia e o drama, eles dançam junto em uníssono com o tom leve proposto. Outro acerto é a reviravolta inesperada acompanhada de um encerramento emocionante e inspirador. O prêmio que o filme dá para seu público é servir uma história universal que mostra com maestria a essência do espírito esportivo.
1. Quero ser Grande (1988)
A partir de uma premissa inventiva, Penny cria um dos maiores exemplares do coming of age com Quero ser Grande. Não é somente um filme sobre crescimento, mas uma jornada para conquistar a maturidade, de aprender com os erros e se permitir errar. A dualidade em ser adulto com a mente de uma criança constrói conflitos poderosos ao mostrar as perspectivas de duas fases da vida antagônicas, porém complementares. É uma atividade de entender que existe o momento certo para tudo e que cada etapa tem que ser vivida sem pressão ou pulada. O roteiro trabalha de forma magnífica esses pontos, equilibrando bem a infantilidade com a melancolia, ligados por uma sensibilidade assertiva. Todavia, essas qualidades são ampliadas pela atuação de Tom Hanks que foge do caminho perigoso da caricatura e entende perfeitamente os dilemas internos de seu personagem e como dosar isso nas cenas e situações. O astro trabalha muito bem a montanha russa emocional, desde a empolgação impulsiva à desolação. A direção de Penny traz a espontaneidade ao longa em que os acontecimentos surgem orgânicos e a comédia nunca se torna intrusiva, mas oferecendo leveza para a história. Muitos filmes tentaram copiar a fórmula do longa (De Repente 30 e Shazam que o digam), mas nenhum conseguiu atingir o mesmo brilhantismo de Quero ser Grande.

















