O circuito de festivais às vezes deixa a gente perdido no tempo. Vê-se um filme no início do ano, de repente ele aparece no final do ano em outro festival antes de, no pior dos casos, sumir do mapa como uma estrela cadente.
“O Faz-Tudo”, de Fábio Leal, não sumiu do mapa. Foi bem falado em janeiro de 2025, em Tiradentes, onde teve sua estreia. Em outubro, lá estava ele causando ti-ti-ti no Festival do Rio, de onde saiu premiado. Agora, está disponível para todos no Portal Curtas por conta do Prêmio Grande Otelo. Temos aqui, portanto, um verdadeiro case de sucesso, na linguagem linkediniana.
E no que consiste este filme de cinco minutos? Uma cartela inicial nos explica que, depois de contratar um faz-tudo particularmente tesudo, o diretor (presumimos que a cartela em primeira pessoa esteja na voz do diretor) pergunta se ele é garoto de programa. O rapaz nega, mas se dispõe a tirar a roupa caso o cineasta o filme em um clipe para “Take a Toke”, trilha sonora de uma novela mais ou menos esquecida dos anos 1990.
Os cinco minutos seguintes mostram o tal clipe, com o faz-tudo usando serras de corte, trocando lâmpadas e consertando a fiação — tudo isso nu em pelo, claro.
É uma ideia extremamente simples, mas que nunca perde a graça. A canção farofa na trilha e as imagens igualmente estapafúrdias resultam num daqueles filmes que a gente tem vontade de mandar para os amigos, para saber sua reação. Quando a música começa a tocar, abre-se um sorriso. Mas é quando o faz-tudo aparece tocando bateria pelado que a gente se entrega para o filme.
E no entanto, por mais que seja engraçado, por mais que beba de uma estética brega, a gente tem a impressão de que o diretor Fábio Leal não está ali só por uma (ótima) piada fácil. Ele, que traz no currículo o longa “Seguindo Todos os Protocolos”, uma crônica do tesão pandêmico, entende as maquinações do desejo. De certo modo, a extrema simplicidade de seu curta é apenas uma radicalização de uma tendência do cinema contemporâneo: o corpo desejante e desejado como arena de disputas políticas, um corpo que deve se afirmar performaticamente diante da câmera, cujo poder político está na sua capacidade de nos afetar.
Extremamente curioso, então, que o corpo desnudado desta vez não seja o corpo queer de Leal (como o foi em “Seguindo Todos os Protocolos”), mas o corpo de um faz-tudo hétero. O que não significa que o diretor não invista sua própria corporeidade no filme: todo o aparato cinematográfico (câmera, cortes, luz) é aqui utilizado para se aproximar daquele corpo em tela, para vê-lo, senti-lo. O cinema como mediador de um toque à distância, de um tesão solitário que não pode se consumar senão enquanto filme, uma máquina afetiva capaz de fazer o corpo em tela vibrar na mesma frequência erótica que o corpo da plateia.
Muito bonito tudo isso, mas, vale lembrar, é também um filme extremamente gozado (com o perdão do trocadilho). Um pênis flácido, esse apêndice mondrongo que alguns de nós carregamos, é algo inerentemente engraçado de se ver na câmera. O que não significa que não seja também excitante, e Fábio Leal sabe disso.













